17% de bateria

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Foi naquele instante, quando você interrompeu o banho para me olhar na porta, que eu percebi que nosso ônibus já estava sem freio, descendo a toda velocidade um barranco que não ia acabar bem. As sobrancelhas arqueadas como quem diz “sério, mesmo?”, os lábios apertados em pura desaprovação e a postura, imóvel, de quem não se da ao trabalho de mudar sequer a posição dos ombros. Virou o rosto, me reprovou com o olhar e voltou a se deitar na água quente da banheira. Estava quente ainda aquela água? Tive a impressão de que seu banho durou três dias.

Dali uma semana, você me mandou a mensagem. Acabou comigo, mas na hora eu fiquei aliviado por ter sido por mensagem. Eu não ia aguentar a sua voz dizendo. Pior ainda se fosse ao vivo, teus olhos fugindo dos meus, seus cabelo atrás das orelhas como uma moldura dourada para uma foto perfeita e a sua pintinha do lado esquerdo da boca, subindo e descendo a cada sílaba do “a gente tem que dar um tempo”, seguido de uma encarada fatal.

Você não lembra? Foi no fim do mês, quase novembro, a gente já tinha até comprado as passagens pro Brasil e, de repente, nossa vida européia tinha se tornado incerta. Era sua vida. Minha vida. Não mais a nossa. Sempre que eu via nos filmes, ou em algum livro, me perguntava o que acontecia com os casais que se separavam sem traição, sem que um dos dois tivesse conhecido uma nova pessoa, sem um motivo forte ou maior que o amor. Você me explicou, bem na prática, como é que acontece. Eu entendo, hoje, como pode um casal apaixonado simplesmente se despedaçar em questão de dias.

E depois, no aeroporto, quando me bateu um aperto tão forte que me parecia a hora da morte, você me fez lembrar que tem vezes que a gente tá realmente sozinho nas batalhas que trava. Eu pensei em ligar, não sei, me bateu saudade misturada com uma nostalgia, o sentimento do Natal, as famílias voltando, ou indo, e eu sozinho no saguão já fazia umas quatro horas. Naquele momento eu te pintei como uma voz amiga, alguém que estaria minimamente feliz em me desejar feliz natal adiantado, ou que pudesse só me dizer que estava tudo bem, que jajá eu estaria com um monte de gente que eu gosto.

“Oi… tudo bem?”, começou, bem mal, a nossa conversa. Zero animação, um tom de voz menos colorido que uma panela de arroz de ontem. Então eu expliquei, só queria conversar, ouvir uma voz familiar, alguém falando em português. Mas quando eu comecei a falar veio, “então, desculpa, é que eu tô esperando uma ligação e meu celular só tem 17% de bateria. Eu preciso desligar…” e desligou. Sem tchau, sem eu falar, sem nada. Só foi. Caralho, essa hora foi foda. Mas tudo bem, o ingênuo foi eu. No fundo eu já sabia, desde a cena da banheira, que qualquer 17% de bateria separaria a gente pra sempre. Tempos modernos.

 

foto joy berdina