A nossa vida real

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A porta se aproximando a toda velocidade, meu ombro contra o metal, o vento frio da noite, você derrapando com as botas de couro no asfalto úmido e o som de garrafas quebrando atrás de nós. Foi exatamente nessa cena em que a nossa vida começou. Ainda não tinha dado tempo de pensar sobre o que aconteceria caso alguma daquelas pessoas alcançasse a gente, nem sobre que tipo de morte horrível eu teria se um dia, por acaso, um daqueles caras descobrisse meu endereço e aparecesse no meio da noite para me dar boa noite. QUAL É TEU NOME eu gritei, enquanto esticava meu braço para te dar a mão antes que você terminasse com a cara no chão. LI-VIA! você respondeu, com a respiração ofegante e os olhos arregalados.

Ainda estava confuso o motivo pelo qual eu decidi te ajudar. Talvez eu já tivesse passado um pouco da conta na bebida, talvez meu instinto heroico tenha aflorado naquele momento, ou quem sabe eu só aproveite aqueles cinco segundos de estupidez incontrolável que todos nós vivemos todos os dias. Hoje, pensando bem, ainda não sei muito bem por que te tirei daquele bar, daquele jeito, naquelas circunstâncias. Se fosse só o fato de eu ter me apaixonado, ou se fosse só o beijo, acho que eu não teria feito nada. Até aquele dia eu não era o tipo de cara que se arrisca por uma garota desconhecida. Teve alguma coisa a mais.

Então a gente continuou correndo, com a respiração rareando e a vista ficando turva, até que surgiu aquela outra garota. Foi tudo tão rápido que eu não me lembro de pensar em nada. A gente derrapando na esquina, ainda lado a lado, o carro preto surgindo na contramão com os faróis nos cegando, o susto, os pneus gritando no meio da rua, as portas se abrindo e ela gritando para nós. ENTRA LOGO! eu ouvi ela gritar de dentro de uma nuvem de guitarras distorcidas. A pressão da velocidade comprimindo meu corpo contra o banco, seu reflexo no retrovisor e os olhos vidrados da garota no volante foram as primeiras coisas que consegui perceber depois que voltei à realidade. Ainda ouvi algumas garrafas se quebrando, mas o som da música e a impressionante velocidade tornaram tudo estranhamente agitado e seguro. Você teve um ataque de riso. Eu quis vomitar.

Acho que existe um grande problema em histórias que começam no ápice da ação. Os personagens e os ouvintes nunca se superam depois do início e tudo está fadado ao declínio. Não tem para onde subir quando a jornada começa no cume. Nós começamos no cume, um puta cume alto pra caralho e, mesmo que tenhamos nos esforçado para descer devagar, uma hora, mais cedo ou mais tarde, a gente chegaria na base de tudo, onde o mundo é seguro, comum e tranquilo, qualidades que a gente não precisava ter por perto.

OBRIGADO POR TER SAÍDO DE LÁ COM ELA! a motorista gritou, com o batom vermelhão brotando de dentro dos cabelos platinados. Ela dirigia como os atores de filmes de ação dirigiam. As luzes da cidade vistas de cima, uma estrada de asfalto velho cercada por árvores muito altas e um vento gelado cortante entrando pela janela. A cada curva eu sentia o coração se acalmando antes de acelerar novamente com o cantar dos pneus. A DRIVER É A MELHOR! e eu concordei com a cabeça, assumindo que o nome da garota era, sugestivamente “Driver”, na falta de alguma coisa melhor. A gente estava vivendo um filme emocionante demais pra ser vida real.

A gente falou dessa noite umas duzentas vezes até parecer que tudo não tinha sido tão incrível assim. As tatuagens que a gente fez junto começaram a perder o sentido. Depois a gente deixou a casa da Driver e voltamos a viver as vidas comuns de quem tem vinte e poucos e não sabe bem o que quer do dia seguinte. Aí você me disse que trabalhava como estagiária em uma clinica veterinária e que mesmo maluca ainda tinha tempo para estudar anatomia de coelhos e doenças raras de cavalos corredores. Você descobriu que eu trabalhava com qualquer outra coisa comum e chata, a gente começou a se ver menos, as coisas foram esfriando, a Driver já não me ligava mais de madrugada com frases de efeito tipo “gato, pelado ou vestido, você tem que descer agora” e a gente já não passava as noites bebendo e dividindo emoções. Quem diria que com a gente seria igual é com todo mundo. A vida real estraga qualquer sonho. Estragou o nosso também.

 

foto magdalena lawniczak