Ideia fixa

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Nunca gostei de ideias fixas. Essa coisa de pensar em tudo e no fim terminar na mesma solução, ou no mesmo conceito, sempre me irritou. Infelizmente tenho vivido esse incômodo diariamente nos últimos tempos. Você se tornou uma obsessão tão chata que tenho ficado em dúvida se realmente gosto de te ver. Penso em você e sobre você tantas vezes por dia que já não quero te encontrar, só para tirar folga da sua imagem.

Pego o carro e lembro de você falando coisas, qualquer bobagem, comentando o cotidiano, falando da sua família, de lugares onde você esteve e, quando percebo, já estou quase enfiando o capô debaixo de um caminhão basculante. Perigoso pensar em você em movimento, mas acontece com uma frequência assustadora. Se estou andando na rua, fumando um cigarro, reparando nas janelas dos prédios acesas, sempre penso nessas suas cenas triviais, você falando nada, rindo, prendendo o cabelo. É sempre esse tipo de memória.

Ouço músicas dias seguidos sem pensar em absolutamente nada. De vez em quando imagino o entardecer em alguma praia da Noruega, onde eu nunca vou estar, e depois tudo evapora. Então, quando já estou enjoado da música da semana passada, ela passa a me lembrar você. A letra, as mensagens que estão subliminares, os instrumentos e fico vivendo um mix de amor e ódio. Quero ficar no silêncio ao mesmo tempo em que consigo imaginar cada vez mais detalhes seus enquanto ouço. Nesses momentos das músicas vejo você em um lugar escuro, sempre é assim, como um sonho repetitivo, e vejo flashes do seu rosto, das suas mãos, contornos dos seus ombros, deus dedos, pedaços de você em movimento no fundo preto. Chego a cochilar com essas cenas brilhando atrás dos meus olhos.

Tomar café tem sido foda, excepcionalmente foda. Do momento em que dou a primeira mordida até a hora em que levanto da mesa, minha imaginação me leva para um universo de completa pornografia. Penso as maiores perversões com você enquanto decido entre bolo ou pão com manteiga. Puxões de cabelo, tapas na cara, cordas, correntes, palmatórias, cenários deploráveis e você selvagem, completamente descontrolada, me arranhando a ponto de arrancar sangue, me cuspindo a cara, gritando obscenidades irreproduzíveis e demonstrando uma insaciedade difícil de acreditar que se apresente na vida real. São manhãs infernais.

Me diz, se souber, quando isso acaba? É que eu odeio ideias fixas…

 

foto tamara lichtenstein