A sobrinha do Capeta

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O corredor inteiro em chamas, a luz de emergência brilhando opaca perto das labaredas que iam do chão ao teto lambendo as paredes. Morar no mesmo andar que o Diabo tem desses efeitos especiais. Dia de festa, eu com uma caixa de cerveja na mão, esperando a porta abrir depois da campainha. Tudo em câmera lenta, uma música alta se lançou para fora quando a maçaneta girou e ele me recebeu com um abraço. Seria o inferno, já que eu acabava de abraçar o Capeta? Eu estava atrasado.

Conheci gente nova dessa vez, achei bom. Na festa anterior tinha quase o mesmo povo: Judas, Zeus, Hades, um rapaz dragão arroz de festa, Cleópatra bebássa, o pessoal de casa. Dessa vez conheci um pessoal da Ásia. Os rapazes que tinham vários braços, um senhor que virava mulher e uma cobra com corpo de zebra. Ela contava piadas de gregos, eu não entendia, mas ria pelo sotaque arrastado. Já fazia mais de dois anos que eu trabalhava em festas de deidades assim. No começo era brincadeira, fazia de graça, mas depois o aluguel foi ficando atrasado e a cerveja cara demais para sair de graça.

Nenhum dos meus amigos comuns sabia disso. É como um garoto de programa que conta aos conhecidos que está trabalhando como barman. Eu era contratato pra sangrar. Coisa besta, né? Vou te contar como começou, foi ridículo. Eu apareci em uma festa do Lu sem querer. Fui pedir para ele baixar o som e, de repente, eu estava sendo abraçado por mulheres de três seios e pele avermelhada igual à dos europeus que dormem na praia. Acabei ficando amigo, somos vizinhos de andar. Quando fui embora ele me deu um cartão: “apesar de ser eu mesmo, gosto de dar meu cartão para gente bacana. Apareça sempre que quiser, tem festa todo dia 6 de cada mês e toda sexta-feira”, me disse sorridente, com seu terno impecável e seu cavanhaque de cafetão. “Lúcifer – Anjo caído” dizia o papelzinho branco, letras Times itálico, que dispensava grafismos além das três palavras.

Na segunda vez que apareci ele me cortou sem querer. Até hoje penso que foi proposital, mas ele jura que sua unha cortou meu braço por puro descuido. Quando uma pequena e discreta gota de sangue escorreu a festa inteira olhou para mim. Aparentemente humanos não costumavam frequentar os encontros assim. Uma mulher branca como uma folha de papel e olhos totalmente pretos se aproximou para me dizer que eu era uma raridade. “Faz tanto tempo que não vejo um humano que tinha até esquecido como eram…” e depois passou o dedo no corte para comprovar a veracidade do meu sangramento.

Desde então Lúcifer pagava para me ver sangrar na frente de seus convidados. Era chato, doloroso, mas depois de algumas aparições encontramos um modelo mais impactantes e simples. Ele colhia sangue de uma das minhas veias do braço com uma seringa e tirava a agulha antes de pressionar o ferimento, fazendo sair um pequeno jato. O público ficava atônito e eu geralmente dava risada. Dessa vez, porém, o roteiro foi um pouco diferente. O Lu me ligou dizendo que queria que eu fizesse o show para uma conhecida dele, uma parente.

Quando entrei conheci as pessoas novas, os deuses inéditos, conversei um pouco, tomei alguns drinks e depois fui apresentado a um jovem loiro e forte. Ele parecia bem comum, apesar da altura acima da média. “Prazer, sou Hércules”, ele disse, e levei alguns segundos para perceber que aquele era o famoso, das histórias, dos desenhos, doze trabalhos e tudo mais. Lúcifer nos apresentou formalmente e depois eu pedi licença para ir ao banheiro. Antes de me afastar demais pude ouvir o jovem perguntar “ele é mesmo do meu tipo?” e meu demoníaco vizinho gargalhou e respondeu afirmativamente com a cabeça.

Eu fiquei confuso. O que será que ele quis dizer com “meu tipo?”. Quando voltei para a sala o palco já estava montado. Por palco entenda uma mesa de centro de ferro e uma luz amarelada focada no lugar. Era minha hora de sangrar, mas eu pretendia perguntar sobre esse papo de jogar no mesmo time que o Hércules, que já não parecia tão amistoso naquele momento. Subi na mesinha, arregacei as mangas da camisa, mas antes de me espetar com a agulha, o anfitrião fez um discurso. Falou sobre cada um dos convidados, agradeceu a todos e depois disse que queria apresentar sua sobrinha que acabara de chegar. Pensei sobre de onde “chegam” os deuses e semi-deuses, uma vez que eu só conhecia o mundo comum, esse nosso, do jeito que você também conhece.

Então surgiu uma garota de Havaianas nos pés, um jeans apertado com cara de velho, uma blusa branca sem mangas e cabelos soltos e comuns. Duvidei que a sobrinha do Senhor do Inferno fosse uma garota tão comum e bonita. Tinha cor de gente, aparência de gente e, exceto pelos olhos muito azuis, poderia ser uma modelo magra qualquer no metrô. Lúcifer disse seu nome, mas eu não prestei atenção. Ao contrário disso, minha consciência estava voltada para o frio descomunal que eu começava a sentir. Era como entrar em uma piscina congelada, degrau após degrau, com o gelo subindo pelas minhas canelas e joelhos, se enrolando em minha coluna como uma serpente e subindo pelo meu pescoço. A agulha se aproximou do meu braço e, quando tocou minha pele, se entortou como um fio de cabelo.

Todos ficaram confusos, inclusive eu, e Lúcifer me soprou no rosto antes de tentar novamente. Como mágica, no mesmo instante, todo o frio foi embora e a agulha penetrou fundo na minha pele, dando sequência ao show clássico. Quando todos aplaudiram e sorriram para mim eu pude ver Hércules saindo da festa. “Vejam, um semi-deus que sangra! Fantástico, não?” e todos vieram falar comigo. Antes de dar atenção aos convidados, como de praxe, o Diabo colou sua boca em meu ouvido e disse: “não deixe que ela pisque para você. O inferno pode ser mais congelante do que se pode suportar”, e me deu um beijo no rosto.

Eu descobri, naquela noite, que pertencia ao time de semi-deuses, assim como o lendário Hércules, ao qual sempre admirei durante a infância. Também aprendi que tem gelo no inferno. Também descobri que Lúcifer tem irmãos e que esses demônios têm filhos. Descobri que deuses podem ser tão comuns e banais como eu e, acima de tudo, descobri que dá pra se apaixonar por alguém com uma simples piscadinha de flerte. Tenho saído com a sobrinha do Capeta quase todo dia. Sou completamente apaixonado pelos olhos dela.

foto lenara choudhury