A vida é um hotel decadente

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Os prédios lá fora caindo, todos, um após o outro, como dominós. As ruas encharcadas de carros, congestionadas até os tubos, pedestres caminhando por cima dos carros, atravessando fora da faixa, fora da rua, fora da hora. O caos instalado do vidro da janela do quarto pra fora. Dentro não. Entre as paredes, o teto e o chão o silêncio estava instaurado sem espaços para concessões. Não era paz, não dá pra chamar um lugar como aquele de “pacífico”, mas era o melhor que se podia ter naquele momento, naquele mundo, com aquela quantidade de dinheiro.

Hotel do inferno é elogio, mas decadência não se mede, a gente constata. O nível, nessas condições, pouco importa. As paredes, avermelhadas, brilhando com o sol impossível do mundo do lado de fora, com a tinta descascando, com manchas de bolor, com marcas de cigarro, com letras escritas com batons alheios anos antes. As paredes eram tudo. Dentro do espaço fechado por elas tudo era diferente. A própria vida pediria para morrer num quarto como aquele.

No banheirinho anexo, mais decadente que a própria decadência, com um cheiro de urina misturado com cigarro quase insuportável, ele se lavava. Lavava-se na pia, com a água fria, molhando a cara magra, seca e cansada, jogando água sobre os ombros, no peito, lavando o pau, o saco, as coxas e, depois, voltava a lavar a cara. Ofegante, moribundo, cansado e fraco, parecia que renascia quando a água tocava a pele, como se bebesse pelos poros, como se a sede fosse da alma. Coisa de corpo doente e mente inapta.

Na cama, no centro do cubículo minúsculo e quente, um corpo feminino perfeito. Magro do jeito que as revistas mandam, branco do jeito que a segregação racial manda, com peitos que os cirurgiões plásticos recomendam, com uma bunda que os programas de auditório exigem, com cabelos da cor que a televisão vende, com olhos da cor que o cinema pede, com um instinto selvagem quase nulo do jeito que o mundo espera que mulheres perfeitas tenham. Era um diamante de carne deitado em lençóis sujos e baratos.

O rosto todo sujo de porra, já secando no vento do ventilador de teto. Ofegante igual a um asmático em pânico, era como se um orgasmo infinito tivesse se instalado ali, dando aquela sensação estranha de morte e euforia que nunca finda. Ele se lavava sem parar, ela gozava sem parar, o ventilador girava incansável e, entre o teto e o chão, uma porção de coisas voando. O cinzeiro pairava quase imóvel há um metro de altura da mesa. As roupas, todas, inclusive meias, relógios, cinto e pulseiras, giravam suavemente no ar em pontos diferentes ao redor da cama.

Ele, bebendo água de todo jeito, vestindo um corpo seco, magro muito além da conta, com um pau maior que o da maioria pendurado no meio das pernas, sentiu que tudo ia se acabar. Fechou a torneira, olhou para a moça perfeita deitada do outro lado da porta e sorriu. Ela sorriu de volta, ainda ofegante e, em segundos, os dois estavam gargalhando. Ele pingando água pelo queixo, nariz e pescoço, misturando saliva, suor e outros fluidos incolores, enquanto ela sentia a vida indo embora pelo meio do peito, rindo histérica, com o corpo pegando fogo.

Tudo foi se acabando lentamente e o som das coisas já não era audível. Depois sumiu o ventilador e os objetos que voavam, junto com o sol, a luz e as texturas. Foi sumindo tudo, uma camada depois da outra, até evaporarem os ossos e ficarem só as impressões, perdidas no escuro infinito de onde era um quarto de hotel, de onde dois adultos fizeram sexo despidos de qualquer preocupação ou preconceito. Sexo ao contrário, daquele que mata tudo ao redor ao invés de gerar vida e perpetuar espécies. Abriu-se um buraco imenso, do tamanho de uma estrela, dentro da boca de cada um e, sem perceber, se engoliram no mesmo momento, para virarem poeira, partículas e sujeira de um outro quarto, numa outra transa, em um outro dia, num hotel tão decadente quanto. Foi a vida se renovando, como acontece a cada segundo.