Antony

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Na parede, logo que você entrava no quarto, lia-se claramente um verso escrito de caneta Posca preta: “desde ontem o hoje é quase tudo que tenho” e logo abaixo a cama de solteiro com um colchão já bem deformado, abatido, com um lençol largo jogado por cima, um cobertor marrom que não parecia nada aconchegante acompanhado de um travesseiro com a fronha amarelada do lado esquerdo. Essa era a visão clássica do quarto do Antony. A gente se conheceu na metade da sétima série e nos tornamos amigos justamente pelo motivo que nos fazia não ter amigo algum: a gente não falava.

Eu não conversava com as outras crianças porque as achava desinteressantes, bobas, fúteis. Para os meus 13 anos, minha sede por conversas aprofundadas estava acelerada demais. Eu era um garoto chato, introspectivo e solitário. Antony era uma bomba relógio. Nascera surdo e não conseguiu aprender a falar direito, mas toda a força que lhe faltava nas palavras, sobrava em suas mãos ágeis. Ele tinha um soco de direita implacável. “Tony Tornado”, o chamavam, e ele seguia com sua sina de nocautear a todos os garotos que faziam piada com suas deficiências. Eu achava a mudez violenta dele uma coisa muito interessante e ele achava a minha quietude constante muito conveniente.

Quando crescemos, a faculdade supriu um pouco da minha vontade de conversar com pessoas que me pareciam interessantes. Passei a escrever ensaios e artigos para o jornal universitário, dei sorte de arranjar uma namorada que gostava mais da minha escrita do que de minha aparência e a vida, silenciosa e precisa, me separou do meu velho amigo. Eu queria ser jornalista, sonhava em escrever sobre as transformações de uma sociedade em constante ebulição, mas meu amigo não tinha sonhos tão claros assim. Antony queria se livrar de algo interno, um incômodo constante, algo maior que ele próprio. Meu amigo estava sendo consumido, ano após ano, por uma raiva infindável.

Tony alimentava sua frustração se sentindo inferior. O mundo ao redor confirmava sua opinião ao não lhe dar chances, não lhe oferecer uma mão e no dia em que me formei na faculdade ele completou seu segundo ano de cadeia. No dia de seu aniversário enviei uma carta, que deve ter chegado em suas mãos com quase duas semanas de atraso, mas que me rendeu uma resposta emocionada, repleta de erros de concordância e ortografias absurdas. Antony não podia falar, e não falava porque não podia ouvir. E por não ouvir, não conseguia escrever corretamente, mas o que me escreveu na primeira vez era de uma honestidade invejável. Na última correspondência que trocamos, há uns três anos, enviei a ele uma foto dele mesmo, que uma amiga havia tirado logo que nos tornamos “maiores de idade”, como diziam na época.

No envelope seguinte, a foto voltou para mim, e atrás estava escrito o seguinte: “desde ontem o hoje é quase tudo que tenho”. A foto, entendi, serviria melhor ficando comigo. Ele não precisava se lembrar de si mesmo, mas pagaria com a própria vida, se fosse preciso, pela chance de ser lembrado por alguém. Eu me lembro do Tony. Sempre vou lembrar.

 

foto Will Coutts