As plataformas intermediárias do metrô

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– esse pode ser meio difícil para você, já aviso –

As pessoas não percebem. E digo que não percebem com a certeza de que realmente não percebem. Eu mesmo não percebia até bem pouco tempo atrás. Passava e não via, não olhava, nem sabia que podia existir algo assim, mas existe. Ou melhor: existem! Tô falando das plataformas intermediárias entre as estações do metrô. E não precisa viajar muito na sua imaginação pensando naquela piração do Harry Potter correndo em direção a uma parede que ficava no meio das plataformas do trem. Tô falando de coisa física, prevista em projeto de engenharia, coisa que não é escondida de ninguém, que está ali o tempo todo, todo dia, toda hora que você viajar no conforto (ou não) do seu metrô diário.

São plataformas utilizadas por funcionários (teoricamente), principalmente os que estão envolvidos com a manutenção, que andam com lanternas na cabeça e caminham livremente pelos trilhos durante o intervalo de horas das 00h às 4h30, quando as catracas reabrem. Algumas plataformas são expostas, você pode vê-las da janela quando o metrô está passando em sua infinita velocidade. Têm seus pilares, suas paredes acinzentadas, lotadas de poeira (a rapazeada da limpeza não vai a esses lugares regularmente) e suas lâmpadas insuficientemente brancas iluminando aqueles pedaços de construção que parecem cenário de algum filme apocalíptico. Raramente vejo, mas assustadoramente já encontrei algumas que têm até bancos, como se em alguma realidade paralela, ou em tempos remotos, algum tipo de trem já parou para buscar passageiros ali.

Além dessas, que são mais raras, existem as que são fechadas. São apenas portas de ferro largadas em vãos quadrados dentro das paredes tubulares dos túneis de metrô. Portas grossas, gordas, obesas, cheias de pinos e rebites, chumbadas com segurança e resistência sem igual, que dão acesso a escadas, salas, câmaras e corredores infinitos e tortuosos que te levam para a superfície, ou para a próxima estação, ou para a estação anterior, dependendo de onde você esteja e do tamanho da sua sorte. São plataformas intermediárias. Lugares feitos para pessoas, mas que não querem receber ninguém. Essas plataformas não são para gente como eu e você. Não são feitas para socorrer passageiros em caso de pane, ou para levar mecânicos e eletricistas a pontos remotos da linha, como dizem. São plataformas para outro tipo de coisa, outro tipo de trabalho.

Vistas da janela, passando rápido, não são mais do que pedaços de alguma coisa que deveria ter sido, mas não foi. Só que lá, fora dos vagões, pisando sobre a poeira densa e oleosa desses lugares você percebe que tudo muda. Não existem paradas intermediárias, mas existem plataformas. Não existem passageiros que embarcam ou desembarcam no meio do caminho, mas existem plataformas para eles. Não existem destinos ou itinerários que derivam dessas plataformas, mas existem lâmpadas para iluminar o caminho dos passageiros dessas plataformas. O fato é que a gente não vê, mas estão circulando trens dentro dos nossos trens, todos os dias. Composições bem maiores que as nossas, muitos metros a mais de comprimento, muito mais velozes, que viajam por dentro de nossos vagões, que atravessam a multidão que se acumula na região das portas e que diminuem a temperatura repentinamente dentro dos trens.

São composições de gentes de outra vida, ou de outra matéria, que precisam, assim como nós, descer e subir escadas para pegar o metrô que as leva para onde têm de ir. O futuro é um lugar exatamente igual ao nosso, mas que não usa exatamente as mesmas estruturas, prédios e caminhos que nós. Essa gente do futuro que tem suas próprias plataformas, seus próprios trens e seus próprios caminhos está apenas dividindo o espaço, mas o usando a seu modo. Estamos em nossos trens, nossos metrôs, indo para o trabalho, para a casa da namorada, para uma festa, para a escola, para onde for, enquanto existem outras pessoas, que a gente não vê porque ainda somos muito ignorantes, utilizando túneis como os nossos, plataformas como as nossas, trens como os nossos, só que vivendo algumas dezenas de anos à frente. Se você parar pra pensar não é tão complicado assim.

Por isso, da próxima vez que você pegar o metrô e perceber as plataformas intermediárias, lembre-se que nada é somente o que a gente vê. Existem muito mais segredos por trás das coisas simples do que nós costumamos pensar. O segredo está em perceber as coisas ao redor. Para onde vão as ruas sem saída? Quem constrói os bustos de estátuas espalhados em praças tomadas pelo mato? O que é que tem por dentro da parte de dentro do esgoto? Por que é que todo prédio velho tem dois andares a mais acima do último andar? Quem é que cuida das casas abandonadas que não foram postas para aluguel ou venda? Basta prestar atenção… esse pessoal do futuro está aqui desde que o presente ainda era passado. Pode acreditar!