Até o decadente me atrai

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Até o decadente me atrai. Eu sou decadente, se comparado ao que fui há algum tempo. É como uma coisa linda e moderna dos anos 1970, que hoje é, no máximo retrô ou cult. Colecionável, é o nome que se diz. Somos todos colecionáveis, cult ou retrô, como preferir, à partir de um dado momento. Talento de quem consegue continuar se interessando pelo velho, pelo que já não inova, pelo que não muda. É quase como ter compaixão, ser legal, gente fina mesmo, sabe?

O decadente me atrai, no centro, vendo os prédios comerciais cheios de salas vazias, os mendigos dormindo por baixo das marquises, as calçadas esburacadas, as raízes das árvores tomando conta de tudo, saindo para o céu, dando à rua, às calçadas, o ar da graça. Isso muito me interessa. A mancha preta, quase um ranço, um sebo, um visco, que fica na fachada dos prédios, pintando os vidros das janelas de marrom opaco, tudo tem história, consequência e reação. Isso sempre me atrai.

Me atrai o morto, o legado, a herança e o sobrenome. A história está sempre lá, seja no corpo, nos escombros, nas ferragens, nas fundações, onde quer ou quem quer que seja. O que já foi sempre me interessa. O passado, o “ah como era bom”, o comecinho doce de todas as coisas bonitas da vida. O começo sempre me atrai. Depois vai ficando igual o entorno, depois vai ficando igual o mundo todo, depois vai ficando velho, depois vai ficando escuro, depois vai ficando ruim e aí eu já não me importo tanto. Aí fica na boca do lixo, destruído, sem valor nenhum, sem nada para dar, aí entra na decadência: daí eu volto a me interessar muito.

Gosto dos extremos e desde pequeno foi assim, sempre foi, sempre será, espero. Uma amiga, uma grande amiga, uma vez me perguntou uma coisa que eu demorei a conseguir responder e nunca respondi. Talvez eu nunca a responda. “Por que, na sua vida, tem que ser tudo intenso? Por que nunca tem nada comum, leve e simples?” Quem quer responder pra mim? Eu não sei. Só sei que não me acomodo com o morno, o simples e o estéril. Sempre gostei de paz e tranquilidade, mas isso nada tem a ver com coisas rasas e comuns. O “leve pesado” existe, você sabe que existe.

Às vezes eu penso que é difícil viver assim, nessa busca infinita e incansável pelo que é novo, sem aceitar ou me conformar com o que existe em momento algum. Já tive muitos problemas por não aceitar a situação eterna, por não me acomodar confortavelmente no estável e seguro. “É difícil ser você” eu dizia quando tinha uns 17 anos, achando que não ia dar pra segurar a onda de viver querendo engolir o mundo. “É difícil ser sua amiga”, ouvia, de vez em quando, de ano em ano, de gentes diferentes, e ainda ouço. Sofria cobranças por nunca querer as mesmas coisas, por ser inconstante e imprevisível. “É difícil ser sua namorada”, ouvi, não uma vez, nem de uma única pessoa, porque deve ser difícil mesmo, não sei, nunca namorei comigo.

É difícil viver entre os outros. Todo mundo sabe que não dá para se acostumar, a gente não pode, não deve se acostumar. Podemos, sim, acalmar em uma situação confortável, em um momento de baixa, de tranquilidade, mas nunca devemos parar os desejos, as ambições e as curiosidades. O saber dá poder. Deve ser difícil viver sem nunca evoluir, sem nunca querer nada, sempre pensando em comprar novas coisas, em ter mais coisas, sem nunca querer saber, querer ser, querer proporcionar. A vida material é vazia, comparada ao volume de conhecimento que a gente pode absorver, mas não posso negar que seja divertida. Na verdade, tudo me diverte. Até o decadente e sem valor.