Memórias Utópicas

17% de bateria

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Foi naquele instante, quando você interrompeu o banho para me olhar na porta, que eu percebi que nosso ônibus já estava sem freio, descendo a toda velocidade um barranco que não ia acabar bem. As sobrancelhas arqueadas como quem diz “sério, mesmo?”, os lábios apertados em pura desaprovação e a postura, imóvel, de quem não se da ao trabalho de mudar sequer a posição dos ombros. Virou o rosto, me reprovou com o olhar e voltou a se deitar na água quente da banheira. Estava quente ainda aquela água? Tive…read more

É tipo o verão

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– um texto para ler devagar, ouvindo exatamente isso –   Parece com o verão a sensação de gostar de alguém. Quente, amistoso, exótico, erótico, colorido… As sensações e imagens são nostálgicas e importantes, os olhos querem se fechar a todo momento, como se tudo ofuscasse um pouco, apesar de muito bonito e interessante. Sons de violão, vozes tranquilas, filmes em câmera lenta, fotografias de gente dos anos 80 na casa da vó, camisa aberta, refrigerantes em garrafas de vidro e copos com formatos complicados. Feriado na segunda, piscina morna,…read more

Os potes

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Os potes todos organizados, lado a lado, cores e tamanhos, na ordem. Todos amontoados nos armários da cozinha do fundo, vazios, sem serventia. Tupperware morre de fome em casa de rico, você sabe. E eu sou rico. Rico pra caralho. E essa cozinha do fundo é a cozinha de lembrar que um dia a gente não foi rico. É cozinha de fogão de quatro bocas, microondas da linha branca da Continental. É a cozinha do tempo do “é o que tem, é o que dá”. Mesa com conjunto de quatro…read more

Que cê tá fazendo da sua vida?

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“Nem dinheiro, nem prazeres, vão trazer o que você tá procurando.” FORFUN Eu acordo, às vezes, e penso que sei o que eu tô fazendo da minha vida. Tem vezes que eu não faço a menor ideia. Hoje é um dia desses. Não sei o que eu estou fazendo e quando digo isso me refiro ao todo, à existência da minha pessoa nesse mundão que a gente vive. O que eu estou buscando? Para onde eu estou caminhando? Onde eu pretendo chegar no final da caminhada? É preciso realmente caminhar…read more

Namastê

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No canto da mesa, logo no caminho da porta, o bilhete largo, dobrado porcamente, escrito em um papel cor de rosa dramático. É que tem vezes que é preciso uma conversa franca, em outras o melhor é uma ligação, uma carta, um e-mail ou coisa assim. Nesse caso era o bilhete mesmo, até um pouco mais longo que o normal, mas ainda assim, bilhete. Começava sem remetente, nem destinatário, e a letra trêmula atacava o papel com coragem. É o tipo de coisa que é escrita de primeira, sem revisão. Dizia…read more

Acendi um baseado pra pensar em você

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Acendi um baseado pra pensar em você. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer no mundo. Bolei rapidinho na mesa da sala, deitei no sofá e fumei inteiro, sem pausa. Viajei lembrando daquela vez que você me disse que eu tinha um olhar ameaçador enquanto bolava baseados. Não sei. Nunca fiz isso de frente com um espelho pra saber. Mas se você disse, eu acredito. Taí um fato: eu nunca duvidei de você sobre absolutamente nada. E você me falava que tudo ia ficar bem, que as…read more

Dente-de-leão

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Sobrou tão pouco de mim. Das frases de efeito aos olhares penetrantes, tudo foi perdendo o brilho, se tornando opaco e ineficaz. Uma manta branca como névoa cobriu o que eu tinha de melhor e foi, aos poucos, me tornando invisível. Se eu falo, as palavras nascem mortas, sem som, sem espaço no dicionário. Se meus meus melhores movimentos tomam conta de mim, o chão não se comove, o vento não se mexe, ninguém vê. Percebo hoje que meus dias eram uma reação química, complexa ou simples, não sei, mas…read more

Sobre onde morrem as pessoas infelizes da cidade

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Com o corpo marcado de músculos, queimado de um sol que não sabe o que é trégua, e o tronco nu, exibido aos quatro cantos do mundo, berrou a plenos pulmões com as mãos para cima. Um urro gutural e longo, tão longo quanto o fôlego de uma pessoa desidratada consegue ser, que nadou na imensidão vazia de um deserto arenoso e selvagem. Era o quintal. Era o Brasil que Deus não criou. Eram lugares grandes demais para qualquer tipo de eco. Paraíso tropical, fiscal e social, só que tudo ao…read more

Lúcifer

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Atrás da casa, depois do galinheiro, havia um grande plano gramado, com mato ligeiramente alto, cravejado de algumas pedras redondas, onde ele gostava de subir vez ou outra. Em uma terra onde quase nenhum dia é completamente ensolarado e o céu permanece cinza por mais de dez meses, todos os anos, não é difícil ter a visão traída e perder algum detalhe na paisagem. Lúcifer sumia diante dos olhos dos menos treinados e misturava sua forma imponente ao contorno das montanhas, ao escuro da sombra das nuvens e aos arbustos…read more

A sua velocidade

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Vivendo a toda velocidade, passando pelas coisas bonitas como se fossem meros postes de luz e nem percebendo que agora as lâmpadas da rua são brancas e não mais amarelas. Um, dois, três, quatro, cinco, dez, vinte, trinta mil anos luz à frente de todo nós e, ainda assim, sempre sem tempo, sempre em cima da hora, sempre “na correria”. Quem é que você persegue tanto? Quem é esse fugitivo invencível que não cansa, que não descansa, que não dorme nem para de correr em momento algum? Dezenas de músicas…read more