Bocas

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Se tivesse coragem de dizer já teria dito. Mas não tinha. Não tinha porque era jovem ainda, sabia pouco do que o mundo tinha pra ensinar; seus amigos, igualmente jovens, também tinham pouco a dizer que pudesse iluminar uma brilhante ideia para mudar tudo. Era a pura inexperiência confrontando o desejo de fazer algo e estar petrificado no mesmo lugar. Era coisa de cara jovem, 20 e poucos anos de energia e insegurança guardados dentro do mesmo frasco. Fazia frio, ele era o cobertor. Fazia calor, ele era o vento. Fazia chuva, ele era o telhado. Fazia sol, ele era a praia. Só não era o que queria ser!

Ela lançava o olhar que só saia daqueles olhos e ele não tinha mais coragem de nada. Era uma hipnose consciente e tudo o que tinha de ser dito ia sumindo aos poucos, esvanecendo, virando pó misturado no monte de abraços e carinhos que camuflavam um monte de sentimentos bem maiores que nunca vieram à tona. Não falava que gostava, mas também não conseguia largá-la, nem deixar que outro ocupasse seu lugar, nem admitir que outra tentasse ocupar o lugar que reservara para ela tempos antes. Era imutável o desejo de ter para sempre uma menina que só estava presente quando achava que era hora de estar.

Era drama de homem, coisa séria, sólida, não tinha frufru nem lenga-lenga. Quando o homem se vê nessa situação, aficionado pela mesma mulher, aconteça o que acontecer, é história de amor que deve-se levar a sério. Acordava pensando em nada e antes de chegar até o banheiro para ver o rosto no espelho já estava lembrando dela. Qualquer coisa dela. Acordava, às vezes, lembrando que era linda. Outros dias, acordava odiando-a com todas as forças e desejando que se fodesse para sempre. Era a inconstância de ter que variar a abordagem do mesmo assunto todo dia. Aposto que, se pudesse, ele seria dela todo dia e não variaria nada nisso, nunca!

Trabalhava lembrando, dirigia lembrando, ouvia as músicas pensando, caminhava pensando, comia pensando, conversava com os outros pensando, via televisão pensando, fazia tudo pensando nela. Pensava o tempo todo um monte de coisas, de diversas cores e formatos, mas principalmente, se ela pensava nele tanto quanto ele pensava nela. Era o desejo eterno e contínuo de ter alguém, mas não qualquer uma. Era ela, tinha de ser, porque era a que fazia tudo ficar mais colorido, clareava a noite e turvava o céu do dia. Era o desconcerto em formato de menina.

Menina, sim, porque mesmo sendo mulherão, a idade e as feições não escondiam que tinha chegado ontem ao mundo. Ver a história de fora me fazia lembrar daquela música velha dos Paralamas que dizia assim: “Ela é só uma menina e eu deixando que ela faça o que bem quiser de mim”, porque era exatamente isso. Se ela dizia que precisava pensar, ele dava espaço e silêncio. Se ela dizia que se sentia triste, ele dava abraço, ouvido e calor. Se ela dizia que queria sumir, ele dava conselho, fazia de tudo para que não fosse, mas se fosse, ia buscar quando quisesse voltar pra casa. Era dela, a vida dele.

Mas eu também vi o segredo. Eu a vi fraquejar uma vez, uma única vez, quando tudo parecia problema, confusão, desapego e incerteza. Tem daqueles dramas de mulher que derrubam tudo, abalam as estruturas até de quem não tem nada a ver, e aconteceu. Ela chorou, se desesperou, perdeu a cabeça e correu pro único lugar onde se sentia segura, segura mesmo, de um jeito que ninguém, nem nada, podia mudar. Correu pra dentro de um abraço conhecido, pra dentro de um coração que sempre tinha reservado espaço pra mais um. Ela gostava de brincar de fingir que não sabia ser amada, mas já sabia que tinha seu amor.

De longe, olhando passivo, decidi soprar um pingo de tempero no almoço insosso desses dois. Eu seria a boca santa que espalharia a novidade que todo mundo já estava cansado de saber. “Ele gosta dela daquele jeito que ninguém derruba, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca negra que levaria o ciumes e a inveja aos ouvidos dos que não conseguem ver gente se acertando na vida. “Acho que tem tudo pra dar certo, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca voraz que engoliria qualquer tipo de comentário negativo, qualquer praga e mal agouro. “Ninguém tem que se meter com eles, sabe?”, eu dizia. Eu seria a boca no trombone para avisar a cidade, as luzes e as vielas que à noite o mundo ia chover gotas de amor do chão para o céu. Uma chuva ao contrário, diferente de tudo já visto, porque ele faria tudo diferente, e ela entenderia tudo diferente e toda a diferença seria um encaixe fino e preciso de gentes que vão ficar juntas. “Eu acho que de hoje ele fica com ela, sabe?”, eu dizia. Eu seria o par de bocas grudados no meio da rua silenciosa, no vento frio da hora já avançada, do beijo simples e sincero que acabaria com toda a espera inútil que a insegurança da gente jovem gerou. “Eu esperei muito tempo por isso”, ele vai dizer, sabe?