Bruna e Cláudio

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O verão fazia o quarto parecer uma sauna seca e a cama desarrumada era a prova de que era impossível dormir demais em dias assim. Ele acordando, rolando entre um lençol amassado com o rosto amassado contra o travesseiro e ela de pé na sala, sentindo o macio do tapete na sola dos pés descalços e tentando ligar o cérebro no tranco. Eram um par acontecendo sem simetria e separadamente. O cachorro do vizinho latia sem parar e a rua começava a tomar ares de um bairro comum, com gente correndo, jovens pedalando bicicletas barulhentas, pessoas tirando os carros da garagem para irem ao trabalho. O amanhecer nos Estados Unidos, uma eterna e monótona cena de abertura de filme chato.

Ele finalmente abriu os olhos completamente. Com os pensamentos ainda congelados, olhava fixamente para o teto branco riscado de linhas de sol furando a sombra do cômodo. O calor abraçava seu corpo como uma pessoa que deita sobre a outra e solta todo o peso. Mesmo vestindo apenas cueca o corpo reclamava do superaquecimento inevitável. Sentiu a bexiga cheia e ponderou se deveria levantar ou não. Ela tinha ligado a televisão em um daqueles canais de clipes musicais. Dançava balançando os quadris de forma contida, com a cabeça pendendo mais para a esquerda. Quando os fios loiros começaram a entrar em seu campo de visão, apanhou um tufo generoso de cabelo e, com movimentos mágicos, fez um rabo de cavalo desajeitadamente bonito.

Ele agora pensava sobre a noite anterior. As luzes, os sons, o vento, a adrenalina. Que noite! Sentiu sua garganta seca e ligeiramente irritada pelos gritos. Coçou o peito e depois alisou o próprio pênis por cima da cueca, constatando uma ereção consistente provocada pela desconfortável vontade de ir ao banheiro. Apanhou o membro com a mão firme e apertou com toda sua força em uma tentativa frustrada de diminuir a vontade. Era inevitável, teria de levantar. Ela agora colocava pó de café na cafeteira elétrica. Vez ou outra olhava para a televisão manchada pelos reflexos de sol da janela e cantarolava trechos das músicas que os clipes apresentavam. Acrescentou água, fechou o compartimento de coagem do café e voltou para o tapete. Sentou no sofá com ar entediado prestando pouca atenção ás cenas na tela. O pensamento estava longe, bem longe.

Ele foi até o banheiro e teve de ficar em uma posição engraçada para direcionar o jato para dentro do vaso sanitário. Difícil urinar com pontaria quando se está no meio de uma ereção. Com o tempo o membro foi relaxando, a incômoda necessidade de urinar sumindo e a consciência voltado a funcionar. Lavou as mãos e jogou uma quantidade de água gelada sobre o rosto. Sentiu dor no olho direito e viu o reflexo de seu rosto no espelho explicando o motivo da dor. Que belo olho roxo, não? Secou a face e caminhou para a sala. Agora ela procurava coisas na geladeira, pretendia fazer um sanduíche ou algo semelhante. Ficou sem paciência de esperar o café e abriu uma caixa de leite achocolatado. Na caneca em que despejou a bebida estava escrito “mamãe” em inglês.

Quando ele chegou à sala, que era separada da cozinha apenas pela copa, percebeu a televisão ligada e reconheceu a música. Disse que gostava da música e depois cantou alguns versos, enquanto caminhava na direção dela, que agora bebia o leite gelado sentada sobre o balcão que servia de fronteira entre os dois cômodos. Bom dia, amor. Se beijaram e passaram a ser um par vivendo juntos e de maneira integrada. Você dormiu bem? Ela perguntou e tomou mais um gole, enquanto ele respondia algo sobre dor nas costas e no rosto. Você sempre precisa brigar com alguém antes de completar o serviço? Ele perguntou como quem se sente traído por alguma coisa. Eu roubei o carro, não roubei? Então pronto! Ela respondeu e depois sorriu, um gesto de cumplicidade com um pedido de desculpas embutido. Ele aceitou, beijou-a mais uma vez e abriu um dos armários em busca de comida. Havia uma bela foto de Bonnie e Clyde presa em um dos imãs na porta da geladeira.

 

foto por luke davis