Canivete

Posted by in Uncategorized

1

O Canivete era o moleque mais foda da escola. Ele tinha um canivete, porra. E a mãe dele tinha morrido quando ele ainda era bebê. E dizem que o pai dele tava preso. Matou alguém. E a vó dele cuidava dele, mas na verdade ele fazia tudo que queria. Os professores tinham medo dele porque diziam que ele tinha “instabilidade emocional” e isso o tornava perigoso. O Canivete tinha 15 anos e não passava dos 60 quilos. Ele tinha alguns amigos, mas ninguém gostava dele. Os amigos estavam por perto porque era legal ser amigo do garoto armado. Todo mundo parecia um pouco mais perigoso depois que era visto andando com o Canivete. As outras crianças iam a festinhas, armavam noites do pijama, nadavam juntas nas piscinas do clube no verão, mas o Canivete passava o dia estragando coisas, furando pneus de bicicleta, riscando portas de carro e roubando. Ele roubava comidas nos lugares, mesmo que não estivesse com fome. As meninas gostavam dos garotos rebeldes, mas nenhuma gostava dele porque ele as dava medo. Uma coisa é parecer perigoso. Outra coisa é ser. As crianças costumam respeitar essa linha com seriedade.

Um dia pegaram o Canivete. Ele estava roubando uma garrafa de bebida no posto de gasolina e o frentista viu. Quando saiu correndo, todo mundo foi atrás, mas ninguém pegava o Canivete na corrida. Um cara que estava perto viu a movimentação e perseguiu o Canivete de moto. Ele acertou uma correntada nas costas do garoto e passou com a moto por cima do seu braço esquerdo. Não foi acidente. No hospital o médico fez questão de mandar engessar o braço do garoto sem dó e da forma menos confortável possível. O ortopedista já havia tido seu carro vandalizado pela lâmina marginal do Canivete. Uma semana depois o Canivete tomou uma surra. Era o dono do posto de gasolina esperando na esquina depois da aula. Tinha três caras no carro, chutaram o moleque até ele parar de se mexer. Dizem que o Canivete não chorou. Depois disso, dos 15 aos 18, o Canivete viveu uma vida de sangue, vitória e derrotas, inúmeras fugas da detenção para menores e algumas cicatrizes. Uma delas, bem feia, marcou um raio de quase 30 cm no peito, resultado de uma briga com garrafas de vidro em um estacionamento de supermercado.

Hoje o Canivete anda com a Ana e mandou se foder todos os antigos falsos amigos. A Ana morava com o pai, ele tinha uma caminhonete e fazia entrega de bebidas. O pai dela morreu pouco antes de o Canivete se tornar seu namorado. Eles fazem coisas mais comuns como passar a tarde vendo filmes, comer besteiras, beber cerveja no telhado e dormir pelado depois do sexo. A Ana tem casa, mas não conta onde mora pra ninguém. Boa parte dos dias ela fica na casa do Canivete, cuidando da vó do Canivete, fazendo as coisas com o Canivete, sendo a melhor amiga do Canivete, sendo a namorada do Canivete. Eles não têm mais problemas com a polícia porque sabem que na próxima a cadeia vai ser o destino certo. A Ana apareceu pra salvar a vida do Canivete. Literalmente. Tem gente que diz que ela já gostava dele, mas não dizia nada. Ele não a conhecia. Um dia, em uma das dezenas de emboscadas armadas para foder o Canivete, um cara tentou amarrar o moleque no engate do carro e o arrastar pela estrada. A Ana apareceu na hora, ninguém sabe bem como, nem de onde. Ela tinha um revólver velho. Ela anda com a arma até hoje. Ela também ficou com a caminhonete do cara.

 

foto greta langianni