Chuva, pó e a metáfora da vida

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Três milhões e meio de gotas de chuva batendo contra o vidro do carro. Eu ouvia todas elas, sem perder nenhuma, como se fossem tambores inaudíveis aos ouvidos comuns, ou simplesmente batidas de um coração que não tem corpo. Era escuro o universo dentro do carro, das vistas que passavam pelas janelas molhadas pelos muitos pingos vindos do céu. Era noite, tinha calma e euforia e, de repente, tudo pareceu perfeito até mesmo para uma mentira bem contada. Estava bom demais pra ser verdade, mas ninguém precisou me beliscar: eu não duvidava da realidade daquilo tudo.

Uma mão gelada e outra quente, como se fosse obrigatório viver contradições do que é bom e ruim o tempo todo. Do lado de fora as ruas encharcadas, pessoas mal humoradas, vidas ruins, memórias vazias e uma porção de fumantes tristes aninhados sob toldos, guarda-chuvas e soleiras tentando alimentar seus vícios. Deprimente a noite fria com chuva em uma cidade grande. Dentro do carro só alegria, risadas sinceras, olhares cúmplices e uma porção de mini revoluções psicológicas acontecendo. É engraçado como às vezes, sem nem perceber, a gente perde uns medos bestas que não sabe nem de onde vieram, né?

As gotinhas grudadas no vidro, o tempo cristalizado do outro lado do mundo e eu, quase sempre calado, conversava comigo mesmo aos berros mentais, tentando entender o que estava acontecendo. Era o milagre da calma física, quando a gente não quer nem falar, nem ver, nem ouvir, nem entender: só se sente o que é de se sentir. E se não for de sentir a gente inventa! Inventa sentimentos, inventa impressões, inventa um universo inteiro só para que a nossa emoção não fique orfã de um lugar para chamar de seu. Eu quero mais é que meus sentimentos sem nome, sem forma e sem cor, fiquem em um lugar adequado, confortável e justo, pra que quando precisarem voltar, que voltem felizes, como eu os quero.

Mas entre o que é sentimento e o que é cena de filme, o meio todo é bem real e importante. Importante para mim que tenho que entender que nem tudo nessa vida é feito a moldes de fábrica ou peças de projetos pré-organizados e previsíveis. Eu quero dar de presente, se é que isso é possível, uma vida nova para os meus sentimentos. E é nessa noite, nessa escuridão pintada de amarelo, púrpura e verde, com luzes, eletricidade, raios e samba, que tudo vai mudar. No infinito particular das expressões trocadas em olhares, toques e gestos está escondido o mundo de verdade.

As gotinhas grudadas no vidro, eu grudado no banco, os pneus grudados no chão e o resto todo flutuando. Lá fora tudo era gás hélio e anti-matéria, fazendo as coisas levitarem, descolarem do chão, que também voava e depois, com o choque entre uns e outros, explodirem e virarem pó. As árvores de pó, pedras de pó, pessoas de pó, um mundo de pó para que a gente precisasse juntar, guardar numa urna e jogar na curva do rio, igual fazem com os cadáveres queimados. O cadáver do mundo antigo está se espalhando e se misturando no meio da chuva, na escuridão da noite urbana e eu, minhas mil ideias e todas as incertezas do mundo estamos de malas prontas, no banco do passageiro, seguindo dentro desse carro em qualquer direção, pra qualquer lugar, pra qualquer país.

Repetira palavras a noite inteira. Repetiria expressões a noite inteira. Repetiria repetições a noite inteira, mas na verdade eram só gotas, milhares delas, milhões aos montes, violentas e suicidas, se jogando de cabeça no vidro da frente enquanto a gente, só de bobeira, não prestava atenção em nada disso, contando uma piada ou fazendo uma graça e rindo da existência toda. A metáfora da vida é, justamente, estar vivo!