Como tem passado?

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Dia desses uma velha conhecida apareceu para pedir um favor. Hoje, nos tempos de internet 24h, as pessoas do passado só aparecem para pedir favores. Fica mais fácil ser cara de pau do outro lado da tela, sendo representado por uma fotinho no Facebook. Apesar de saber que as pessoas precisam pedir coisas o tempo todo, a gente sempre começa a conversa de forma cordial e falsa, fingindo algum interesse. Ela disse “como tem passado?” e eu pensei em responder a verdade. Uma vez na vida eu responderia a verdade.

Tive vontade de dizer que no meu trabalho as pessoas não conversam mais, nenhuma palavra. Parece que nos últimos meses todo mundo tem sua própria solidão para cuidar e, por isso, já não existe motivo para interagir com os outros. Sobre o trabalho tem sido difícil, uma repetição eterna dos mesmos processos, os mesmos textos, as mesmas imagens, tudo igual. Para alguém que ama o processo criativo essa rotina tem sido uma morte lenta.

Pensei em falar que agora ando lendo poesias enquanto cago, é um hobby que estou desenvolvendo. Ando meio afastado dos livros, não tenho paciência de atravessar mais do que um parágrafo sem que qualquer distração encerre minha leitura, mas a poesia tem sido uma boa companheira nesse momento inútil que é sentar para cagar e admirar o azulejo da parede. Peguei uns haikaiss da coletânea do Leminski que têm sido incríveis.

Quase falei sobre como tenho aproveitado quase nada dos dias. Passo horas, dúzias delas, na cama pensando em nada, olhando para a parede branca do apartamento com a cabeça completamente vazia, quase como um casco sem conteúdo. Penso em sair para ir ao parque, mas o sol me irrita. Penso em escrever, mas estou completamente sem ideias. Nem meu vídeo-game, nem minha câmera, nem meu violão têm me atraído. Vivo num imenso tédio estéril quase a semana toda.

Também me ocorreu falar do calor. Tenho uma sensibilidade complicada para altas temperaturas, meu humor despenca e começo a pensar que tudo está, de alguma forma, errado. Ontem fez trinta e cinco graus na hora do almoço e eu pensei que a cidade, vista da minha varanda, começaria a derreter como objetos de plástico no forno de assar bolo. Hoje, quando abri a janela e senti o vento úmido e fresco da garoa, me deu vontade de chorar. É emocionante quando não é calor.

Poderia ter conversado sobre dinheiro, que é sempre um assunto que gera empatia. Tenho atravessado os meses sistematicamente sem conseguir pagar todas as contas. Depois do dia vinte, mais ou menos, os números negativos começam a aparecer em todos os lugares e o salário já nem parece alívio, é só um band-aid em cima de um corte profundo. Mais cedo ou mais tarde, vai sangrar de novo. E ninguém tem certeza de que amanha ainda vai estar empregado, nem que as coisas vão melhorar. Tá todo mundo na fila da sopa, só isso.

Mas ao invés de conversar sobre isso tudo, poupei o desgaste da outra pessoa e respondi apenas “Bem…” e esperei ela pedir o que precisava pedir. Era uma foto, do cachorro, que ela queria que eu cortasse no Photoshop e colasse em um fundo branco com alto contraste. “É que eu vou tatuar essa imagem semana que vem”, ela disse.

 

foto fragmento universo