Dente-de-leão

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Sobrou tão pouco de mim. Das frases de efeito aos olhares penetrantes, tudo foi perdendo o brilho, se tornando opaco e ineficaz. Uma manta branca como névoa cobriu o que eu tinha de melhor e foi, aos poucos, me tornando invisível. Se eu falo, as palavras nascem mortas, sem som, sem espaço no dicionário. Se meus meus melhores movimentos tomam conta de mim, o chão não se comove, o vento não se mexe, ninguém vê.

Percebo hoje que meus dias eram uma reação química, complexa ou simples, não sei, mas química. A junção de elementos tendo como resultado outro significado. Não existe mais reação. Não reajo. Não bato e não apanho. Uma massa grossa e pesada, pendente dos meus ombros e braços, tem me segurado. Caminho com o peso de dois corpos, sinto o fim das energias se aproximando a todo momento e não consigo me livrar. Caí em um ralo, profundo e escuro, que vai secando minhas águas em alta velocidade, girando em espiral.

Isto aqui, hoje, já não representa quem eu sou, ou era. É um cartaz, um papelão, uma projeção, um holograma superverossímil que cumpre com as minhas funções sociais. Esta coisa que ocupa meu lugar atende os telefonemas, conversa sobre amenidades, responde e-mails, escreve neste blog, tem opiniões em meu nome e segue meus dias. Mas não sou eu. Não costuma ser, na verdade.

Ah, os passos de dança! É deles que sinto mais falta. Mas também sinto falta de algumas cores, das faixas tracejadas iluminadas pelo farol do carro sumindo em alta velocidade, das músicas do momento tocadas à exaustão sem nenhum pingo de culpa. Ouvia-se muita música pop. A parede da vida que me protegia das coisas simplesmente enfraqueceu e, em alguma parte dela, abriu uma fenda, buraco, rombo qualquer, que deixa passar um vento forte demais do qual já não sei me proteger. Dente-de-leão que sou, vou, aos poucos, me despedaçando em uma divertida e nostálgica cena de destruição. Vai sobrar só o talo, no fim das contas.

 

foto stefany alves