Doládelá

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Eu dei uma sumida de dois dias – e sumir é coisa séria, pode acreditar. Troquei essas linhas de letras firmes e sempre direcionadas da esquerda pra direita pelas faixas intermitentes da estrada, farol alto na contra mão é falta de respeito, estrelas pra cima, olhos de gato para baixo, e meus olhos fechados para ver além. Fui pra outro lugar, um lugar que fica doládelá da estrada, no fim das placas de quilometragem, lá depois de onde as coisas perdem a pressa, onde o ritmo é outro, o cheiro é outro, a temperatura é outra e as pessoas, definitivamente, são bem diferentes.

Fui pra um lugar onde o relógio funciona em dissonância com o sol e a lua. “De manhã” é meio dia, toma-se café da manhã às 13h, almoço só depois das 18h, jantar lá pras 23h30 e dormir, dormir mesmo, é só às 6h da manhã. Nesse lugar as conversas são intuitivas, como se as palavras não precisassem ser ditas até o fim: “péguess negócií pra mim, pfavô”. Lá é sempre hora de festejar, sempre hora de beber, sempre hora de se juntar com alguém, ir para algum lugar, fazer alguma coisa. Mesmo que pontualidade não seja muito importante, os compromissos e a presença física sempre são.

Tem coisas curiosas – pra não dizer hilárias – doladelá. Por exemplo, as caçambas de entulho. Em qualquer lugar do mundo elas são amarelas, para se destacarem e não serem atingidas por ninguém. Mas lá não, lá algumas são vermelhas, outras já mais velhas, marrons, e ninguém liga se elas vão ficar perigosamente invisíveis durante a noite. Não importa, o que importa é estarem bonitas. Até porque, no trânsito, ninguém corre, todo mundo tem tempo de sobra pra chegar nos lugares, afinal, o relógio é só detalhe. Lá o motoqueiro almoça, come bem, depois abre uma lata de cerveja e sai pilotando pela cidade, guiando em marcha lenta, bebendo cerveja e apreciando a paisagem que se apresenta de frente ao guidão. Está tudo bem, não tem problema beber e dirigir moto. Lá não tem problema.

Come-se ridiculamente bem doladelá. É possível comer o que der vontade, beber o quanto quiser e voltar para casa com dinheiro para o pão do dia seguinte. Tudo é muito gostoso, muito bem feito e muito barato. Além disso, se você não quiser sair para comer, pode ficar tranquilo, todo nativo sabe cozinhar. E cozinhar bem! Na terra da culinária farta, o restaurante árabe é self-service e oferece, ao lado do tabule e do kibe cru, uma porção de kani e uma travessa bem servida de frango à parmegiana, seguida de uma mesa com feijão tropeiro e mandioca frita. Tudo bem, sério!

Um único limão faz um copo de suco de meio litro. Dois limões, dos que eles usam lá, fazem uma limonada pra cinco brothers. É tudo farto. As mulheres são fartas de beleza, de ousadia e de vaidade. A maioria não é muito farta de roupa e os vestidos curtíssimos são empregados até nas tarefas mais banais, como ir ao mercado ou atravessar a cidade para visitar o médico. Sempre bem arrumadas, sempre bonitas, sempre atentas. Doladelá ainda tem gente preocupada em manter praças bonitas, ainda tem o coreto, ainda tem anúncio no encosto dos bancos de descanso nas calçadas e a praça de frente à igreja continua sendo um dos lugares mais agitados da cidade.

Lá não tem zona azul, não tem parkimetro e são raros os estacionamentos. Carro para onde der pra parar, desde que não seja na frente do portão de ninguém. Mas se não tiver carro, não tem problema, de bicicleta ou a pé é possível ir para todos os lugares. Todos mesmo, da maior festa da cidade à casa do namoradinho novo. É daqueles lugares que o moleque, no começo da adolescência, sobe no morro – porque toda cidade assim tem um morro – assiste o por do sol puro, sem nuvens nem faixa de poluição, e depois aponta a mão aberta em direção à cidade toda iluminada, espalmada no horizonte, e tem a certeza de que “a cidade toda cabe numa mão só” e depois ri de si mesmo. Só existem 10 edifícios, nenhum com mais de 20 andares e o aeroporto só recebe monomotores e aviões de pulverização.

Doladelá aquela tristeza e preguiça que a gente sente depois do almoço chama-se “banzo”. O que aqui a gente chama de perseguida, xana, xota, prexeca ou qualquer outra variação, lá chama-se apenas “tico”. A soda, que vem em garrafinhas de vidro com a simpática alcunha de “Sodinha”, na verdade, é feita de abacaxi, não de limão, como espera-se que uma soda seja. Nesse lugar de coisas muito novas e, ao mesmo tempo, tão tradicionais, a felicidade se esconde nas coisas simples e pequenas. E eu voltei, porque como disse Projota, “não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar”, mas trouxe um pouco de lá comigo. A gente sempre traz, né…