É o fim, anjinho!

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Eu queria ser amiga dela, ir para festas com ela, dormir na casa dela, comer x-burguers gordurosos às 3h da manhã com ela, tomar o pior cappuccino da cidade no Fran’s Café com ela, me drogar com ela, fazer tudo com ela. Quando conheci a Nik o mundo desacelerou um pouquinho, os segundos se esticaram e não precisou nem de um minuto inteiro para me apaixonar: eu estava louca por aquela mulher. Ela era um pouco mais bronzeada que eu, tinha os cabelos ligeiramente mais curtos que os meus, mas quem nos via pela primeira vez achava que eramos gêmeas. “Vocês são irmãs?”, a gente ria, dizia que sim e depois se beijava de língua da maneira mais lasciva que conseguíamos. Era uma das nossas brincadeiras preferidas.

Também gostávamos de mostrar os peitos para idosos nos semáforos, pedir fogo em bares country e depois baforar na cara dos rapazes, tocar campainhas nas casas dos bairros ricos e escrever poemas eróticos com batom rosa choque nos espelhos dos hotéis. Adorávamos ficar em hotéis. Antes da Nik eu não tinha estado em muitos, mas ela sempre dormia por aí e tinha uma extensa lista de características, valores e peculiaridades dos principais hotéis da cidade. Ela era rica e mais velha, eu amava isso. Eu a amava também, muito.

Chegávamos bêbadas nos quartos, ela segurava meu rosto e dizia que eu tinha cara de anjo. “Os anjos devem ter rostos parecidos com os seus”, ela dizia. Eu me sentia explosivamente feliz e tinha vontade de beijá-la violentamente. Eu tinha vontade de violentá-la, rasgar sua roupa, puxar seus cabelos, estapear sua cara e depois distribuir orgasmos múltiplos pelo decorrer da noite. Eu nunca senti tanto prazer com ninguém. Em qualquer situação, fosse durante o café da manhã ou em uma maratona sexual, ela sempre tinha total controle da situação e, mesmo quando eu tomava as rédeas, sabia que só estava fazendo aquilo porque ela permitia.

Ela tinha um corpo lindo, com curvas milimetricamente desenhadas, pernas fortes, lábios grossos e não havia roupa que conseguisse a proeza de deixá-la feia. Uma vez fomos a uma festa e ela bebeu muito, todos ficaram olhando para nós, depois ela passou mal, vomitou no meio da pista e sentiu uma vergonha incontrolável. Eu a levei para o carro, dirigi até um hotel onde os funcionários nos conheciam, subimos para um quarto sem fazer check-in e passamos dois dias lá dentro. Não abrimos as janelas, não ligamos a TV, não falamos com ninguém além das pessoas que nos atendiam pelo telefone para trazer comida. Ela chorava descontroladamente por ter perdido a pose, por ter passado vergonha, por não ter o total controle de tudo pela primeira vez. Eu senti pena do desespero dela.

Depois disso, viajamos para o interior, alugamos um carro, passamos dias pelo deserto, fumando cigarros paraguaios, comendo qualquer coisa, ouvindo músicas velhas, respirando outros ares e levantando, lenta e calmamente, um imenso muro entre nós. Depois que eu vi o lado mais frágil da Nik, ela começou a não se interessar mais pelas nossas aventuras, seu humor minguou e a mágica que existia simplesmente acabou. A Nik se tornou uma mulher comum para mim. Um dia, depois de dormirmos em um motel de beira de estrada durante a viagem, encontrei a chave do carro em cima da tampa da privada fechada e ela não estava lá. No espelho do banheiro, quatro palavras em batom cor de rosa…

 

foto ian maddox