Ela e Ele

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[19:43]
Entraram no carro e riram, não por nada engraçado, mas por alegria acumulada. Era feliz o encontro deles, em todas as vezes. Amigos recém conhecidos. Havia um otimismo no ar, uma satisfação pela companhia mutua, se davam bem e se sentiam bem um com o outro. Mensagens de celular, risadas altas, janelas fechadas e uma série de semáforos misteriosamente verdes.

[20:01]
No bar, mil abraços em mil pessoas, copos, taças, risos, fotos, mais fotos e todo tipo de conversa amena. Termômetros em 11 graus e dentes brancos à mostra de felicidade, cercados por lábios protegidos com batons de cores escuras e opacas. Ele de barba, casaco e cerveja. Ela de cachecol, trench e conhaque. Que dupla.

[23:27]
Os amigos começaram a ir embora, um a um, com beijos e rostos gelados, se despedindo, agradecendo e encurtando o tamanho da mesa. Ela já falava de coisas íntimas sem pudor, ex-namorados, viagens sexuais, ciladas amorosas. Ele ria, ouvia, contava de seus absurdos e, aos poucos, iam se separando do mundo e das pessoas ao redor.

[01:36]
Nítido o nível alcoólico dos dois. “Vou ligar pro seguro! Eles têm um negócio que um cara leva seu carro pra você, tipo um Uber de bêbado, mas com o seu próprio carro, hahahahahaha” e enquanto ouvia a ligação chamar percebeu que estavam só os dois na mesa. Ela ficou fascinada pela maneira como ele a olhava fixamente. Corou.

[01:52]
“Não, tá tarde, eu pego um táxi, vai dormir…” ele argumentava, enquanto ela insistia que ele subisse para uma última taça de vinho. “Se você não subir eu vou ficar ofendida”, devolveu ela, como um xeque-mate. Ele estava apreensivo, ela, eufórica. No elevador eles se abraçaram, ela reclamou do frio, ele elogiou seu perfume sussurrando.

[02:13]
Ela estava deitada no sofá, com as pernas sobre o colo dele, segurando uma taça de vinho pela metade, falando sobre como acha complicado entender tudo o que os outros esperam de nós. Ele ouvia, já um tanto zonzo da bebida, e massageava os pés dela por cima do tecido translúcido das meias calças pretas. Ele estava amando cada segundo daquela intimidade.

[02:59]
Ela de pé em frente à geladeira, com as luzes da cozinha apagadas, iluminando a casa em busca de alguma coisa para comer. “Tem pizza de ontem, quer?”, ela gritou, enquanto ele negava e agradecia. Durante um instante os dois ficaram em silêncio, cada um em um cômodo. Ambos pensaram, mesmo sem querer, que aquela noite era incomum demais.

[03:26]
Toca uma música estranha que preenche todo o cômodo. Ela tira a roupa, peça por peça, enquanto dança da forma mais livre que ele já tinha visto. Ele já está descalço e sem camisa quando ela vem com tudo, lambe seu pescoço e o puxa pelo cinto em direção ao quarto. Ele a abraça por trás e sorri com o rosto entre os cabelos dela.

[03:40]
Ela prende os cabelos em um coque desarrumado sem sair de cima ou interromper os movimentos. Ele tem certeza de que nunca esteve com nenhuma mulher mais intensa e impressionante quanto ela. Ela fecha os olhos e aperta o pescoço dele enquanto sente mãos geladas percorrerem suas coxas e barriga. Show de sensações às escuras.

[05:16]
A luz do quarto se acende e os dois se viram bruscamente em direção à porta, onde uma mulher de pé, com uma mala pendente do ombro, está parada. “Quem é esse cara?”, perguntou a recém chegada, enquanto uma lágrima corria pelo rosto vermelho.

 

foto rupert lamontagne