Trem da madrugada

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Era noite, eu já estava viajando há doze anos e o trem acabava de partir. Tem um grande erro na nossa cabeça quando imaginamos viagens de trem sem nunca ter efetivamente viajado sobre trilhos: as cabines. A gente vê nos filmes aqueles trens com cabines e portinhas fechadas, mas a verdade é que hoje esses trens são minoria. O comum é viajar em vagões com cadeiras um pouco mais confortáveis do que as de trens normais, mas só um pouco, e sem divisórias entre passageiros. O trem moderno é como um avião grudado no chão. Eu lembro que a ferrovia seguia por cima de uma ponte muito alta e lá em baixo passava um rio. Ao redor do rio as casinhas acesas, alguns barcos, a vida acontecendo e eu assistindo.

O ser humano, seja quem for, se transforma em um diretor de cinema fazendo um vídeo-clipe da própria vida no momento em que dá de cara com uma janela, movimento, o próprio reflexo lá fora e alguma música. Meu ipod estava carregado e preparado para as próximas seis horas de viagem, eu imaginava um filme viral mostrando a minha viagem com muitos ângulos difíceis e modernos. Na verdade, tirando a música e a imaginação, somos só nós fitando a noite sem ter mais nada pra dizer. Ninguém viajava ao meu lado, nem à minha frente, de modo que apoiei as pernas na cadeira vazia e tentei relaxar. Viajar sozinho nos traz uma sensação estranha de extrema liberdade e e claustrofobia, como se, de repente, essa liberdade tivesse nos feito achar o mundo pequeno demais para todos os planos que ainda temos a cumprir.

As luzes apagaram, acho que já passava das onze da noite e tive a estranha sensação de estar vivendo algo importante. Via como se o trem fosse uma linha longa e preta cortando a própria escuridão. Eu fazia parte daquilo e estar sentado naquele vagão quase vazio me fazia sentir responsável por alguma coisa, como se fosse necessário explicar a beleza do escuro viajando por dentro do breu, cheio de gente dormindo, jantando e sonhando dentro dele. Esse escuro, sólido e barulhento, me levava para uma cidade onde as coisas estavam ficando complicadas. Ao menos para mim. Eu achava, naquele momento, que era uma grande coisa estar num trem apagado viajando durante a noite, mas na verdade era uma banalidade sem fim. Todos os dias três locomotivas diferentes levando centenas de passageiros em seus vagões faziam o mesmo trajeto noturno. Eu estava tentando romantizar a coisa mais simples do planeta: andar de trem.

Só que fazia isso porque realmente queria que fosse algo épico. Queria chegar do outro lado transformado, como quem renasce ou surge sabendo mais coisas do que sabia antes de partir. Um dia saí para pedalar, estava inspirado, tinha acabado de assistir Forrest Gump e queria ver o que tinha além dos lugares onde eu costumava ir. Depois voltei para casa e desejei crescer rápido para poder viajar, ter a vista que eu quisesse e ver o mundo como ele é do outro lado. Dei um beijo na minha mãe, acenei para o meu pai e saí para trabalhar. Eu tinha pedido demissão dois dias antes. Apanhei a mala na garagem, escondida debaixo de uma toalha velha e fui para a casa da minha namorada. Fizemos sexo, ficamos deitados a tarde toda e eu disse que ia voltar para casa. Nos beijamos sem amor e eu fui para a rodoviária. Peguei um ônibus, outro, peguei carona, corri algum tempo, aliviei o peso da mala, troquei por uma mochila, morei em alguns lugares, passei a viver com outras pessoas, conheci uma moça que me deu dinheiro pelo simples motivo de ter me achado simpático, vi alguns países, conheci algumas línguas, tive a chance de morrer uma centena de vezes e depois entrei naquele trem para voltar para casa. Era noite, eu estava com medo, o vagão estava escuro e eu não tinha mais para onde ir.