Fail

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Ela esperava que eu fosse inventar uma história incrível, cheia de detalhes e objetos inexistentes, diálogos profundos, palavras pesadas e sentimentos traduzidos em um monte de parágrafos cheios de frases que qualquer poderia recortar, colar na porta do armário e ler toda vez que precisasse se lembrar que o mundo pode ser ainda mais dolorido do que já é. Mas não, eu não a satisfiz e dei de presente um belo silêncio literário. Não escrevi uma linha sequer sobre qualquer coisa que ela me disse, nem sobre o que fez, nem sobre as minhas opiniões.

Eu já conhecia esse tipo de garota. Abria as pernas para mim em troca de um texto, de uma história fantástica que narrasse a nossa noite de sacanagem como o dia mais romântico e mágico da minha vida. Ela não teve nada de mim, absolutamente nada. No dia seguinte era como se eu tivesse ido dormir às 22h e nada de diferente tivesse acontecido. Na verdade precisei me esforçar para isso. Faz parte de mim contar das minhas experiências e desamores. Mas ela precisava tomar do meu silêncio, comer da minha indiferença e foi isso que fiz. Dei a ela absolutamente nada. Entreguei uma página branca, cheia de adjetivos e substantivos nobres que eu não escrevi, repleta de ideias que eu nunca tive, contando de uma cena tão bem detalhada que não dava para imaginar, porque não existiu.

Fiz dela um fantasma que não passou pela minha vida. “Se não está escrito, não existiu”, escrevi no box do banheiro do motel logo depois de tudo, aquele tudo que não foi nada. Eu estava realmente cagando e andando para o que ela ia pensar, ou fantasiar, mas eu sabia que ela esperava algo. Algo grande, delicado, bem desenhado e fino. No lugar dei a ela um imenso e infinito nada. Só o nada, puro e sem tempero, exatamente igual ao valor dela para mim. Foi como se eu soprasse uma garrafa que não fizesse barulho, ou com se queimasse uma vela que não trouxesse luz. Foi um impossível que nem foi nada, não foi, não ser, não existiu verbo, não existiu nada. Zero, conjunto vazio, nulo, oblívio, vácuo, fim.

Ela ficou fudida!