Fuga: sucesso!

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Fugiu porque era a hora, o momento estava ali, a oportunidade se tornou lei e então foi. E diz-se que fugiu porque é mais fácil entender, mas na verdade, só foi, porque não estava sendo procurado por ninguém, se não pela própria vida. Largou a rotina no meio, na quebra do tempo e foi, porque tinha pra onde ir, porque já sabia o destino e então seguiu na direção. Fugiu de si mesmo, talvez, mas diria para todo mundo que estava “indo ali” e voltava logo. Se voltasse, seria logo. Se voltasse. Mas não disse nada porque não precisou.

A pia ainda com louça do dia anterior, a tv ligada e a janela do banheiro aberta. Ficou tudo ali, como estava. A porta trancada por fora, os paços sumindo ao longe e tudo bem. Deixa pra lá, ninguém liga, ninguém paga as contas, não tem que explicar merda alguma. Um metrô, uma mochila, um livro e uma passagem pro ônibus que sai jajá. Ainda é quarta-feira. Uma quarta-feira em fuga, diriam, mas para ele não. Era só uma quarta-feira, daquelas que o coração não acelera, das que ninguém gargalha nem chora. Um dia de nada, pra ir pro nada sem falar nada pra ninguém.

As luzes na rodoviária, as luzes na cidade, as luzes dos cabelos das moças do guichê e as luzes do mundo que mudavam o rumo da história que lia. No livro estava escrito assim: “Eram azuis, eu acho, mas sob o efeito da luz foram escurecendo, verdes, castanhos, pretos. Quando ficaram bem pretos, saí à rua” e interrompeu a leitura para embarcar. As horas estavam ali, no relógio do teto e o tempo não mente para viajantes, um depende do outro o tempo todo. Se não fossem as viagens, para que haveríamos de contar o tempo, não é mesmo?

Poltrona da janela, 40 lugares, 13 passageiros, umas 6 horas de viagem. Depois de sair da cidade a estrada escurece o interior do coletivo ao ponto de apenas os carros no sentido contrário conseguirem iluminar os contornos das várias poltronas vazias. O livro já não era tão necessário, ouviu música para fermentar ideias e, só porque podia, repetiu inúmeras vezes apenas uma única faixa. Ouvia Dd Stewart no sugestivo título de Silly Boy,  com distorção na voz cantando sensualidades e desenhando linhas neon na escuridão da estrada roubando estrelas a cada curva. Viagens.

Três da manhã, desperto de um sono torto e dolorido, os primeiros passos no horizonte, no “B”, depois da linha que saia do ponto “A”. Um endereço num pedaço de papel, um táxi, “R$ 28,50, moço”, um telefonema, “Juro, não é mentira nem piada, avisa que você me conhece e me deixa entrar, eu viajei pra caralho, rs” e o portão moveu-se. Era quinta-feira, mas a madrugada não tem dia. Toda madrugada é o mesmo dia. Todo dia, durante a madrugada, é o ontem e o amanhã, porque o hoje, entre meia-noite e cinco da manhã, não existe. Era alguma coisa entre 3h e 4h da manhã, uma quinta-feira estava vindo, o frio já estava lá e a porta se abriu. Ele nitidamente calmo e contente, ela confusa e sonolenta: “Oi… o que você tá fazendo aqui?”, ela perguntou, com bom humor duvidoso.

A resposta não veio. Mas veio o braço dele ao redor da cintura dela, um beijo inesperado que não encontrou nenhuma resistência e ela, já mole do recém interrompido sono, se deixou acalmar no corpo frio de quem vinha de fora. Era a primeira vez que se beijavam, a primeira vez que falavam assim, na mesma língua. A porta algum espírito fechou, a mochila ficou no chão, o quarto se descolou da casa e a sala tornou-se o mundo. A luz apagou porque tinha que apagar, o telefone ligou, sozinho, para o trabalho e avisou, fingindo voz de doente, que não iria hoje. No escuro bem escuro, deitados no sofá, beijando tão lentamente que pareciam ler um braile alheio, na língua do outro, numa história sem pressa de acabar, evoluindo pra sexo, sono, beijos, sexo, sono, beijos, num ciclo lento, erótico e sensual. Fuga bem sucedida!