Imortais

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Tá acontecendo uma cidade lá fora. Abri a janela e meu silencio foi espancado por uma onda apressada de barulhos de carros passando pelo asfalto molhado, vento, buzinas, obras ao longe e um helicóptero bem perto fazendo ar vibrar e as ondas de som oscilarem. Cortava o som e descortava cada vez que as pás daquele carro voador giravam sobre a minha cabeça. Estava mesmo acontecendo uma cidade lá fora. Pela janela do décimo andar não restavam dúvidas, não havia nem o que argumentar, o mundo estava funcionando novamente. Olhei para as pessoas caminhando, indo cuidar das vidas, tendo objetivos, compromissos, horários. Alguns com guarda-chuvas, outros ao relento, indo e voltando, enquanto dezenas de carros cruzavam a cena indo em direções opostas e seguindo para outros compromissos e outros objetivos.

As pessoas estavam todas ali, vivas mesmo, como se as engrenagens nunca tivessem parado, como se não precisassem parar. Na verdade, não tinham mesmo motivo para pararem, mas eu acreditei que isso estaria diferente quando abrisse a janela. O mundo estava acontecendo, o inusitado e o destino traçado estavam enrolados no mesmo dia. Estava tudo normal. Ao redor das coisas existia o movimento natural do vento.

As árvores balançavam, também tinha o movimento das gotas da chova, ora indo mais para a esquerda, ora mais para a direita. Ainda maravilhado com os movimentos da vida real, fiquei olhando uma mulher que atravessou a rua correndo antes do farol abrir e ainda me espantei com a maneira fluida e natural com que ela se movia, como suas roupas balançavam, como seu cabelo alçava voo a cada novo passo largo. Era muito estranho para mim, era incomum. Ver tudo aquilo foi como estar diante de uma parede lisa e sólida tendo a certeza de que havia uma porta bem ali.

Olhei ao meu redor, as coisas todas iluminadas pelo céu claro e cinza enquanto sombras de gotas escorrendo pela janela desenhavam o chão de marrom claro e escuro. Acho que estava com a boca meio aberta, queixo caído, quando senti você se aproximar, com a mão nas minhas costas subindo para o ombro. Senti você chegar, encostar sua cabeça no meu braço e descer a mão até a minha cintura. Ficou ali, me segurando junto, sorrindo e achando graça da minha cara de idiota. “Eu disse para você que ia ser estranho, mas é legal, não é?” ouvi você dizer, concordando, mas sem conseguir dizer uma só palavra. Não piscava, não conseguia fazer movimentos rápidos e respirava acelerado.

De repente, quando me dei conta de que o mundo estava mesmo acontecendo, de que as coisas estavam mesmo existindo, que tudo se movia, era normal e comum, tive um ataque de riso. Comecei com um breve sorriso, depois uma risada tímida e foi evoluindo para gargalhadas violentas cheias de lágrimas e dores nos músculos da barriga. Era como se fosse um absurdo anunciado, uma tragédia temporária que causava estranheza e indignação em quem assistia até o fim. Você também riu, comigo e de mim, e esperou eu me acalmar.

Depois de algum tempo, comigo já deitado no chão da sala vendo o ventilador de teto girar lentamente, quase parando, e continuar olhando as gotinhas que se moviam pelo vidro da janela, vi você se aproximar. Agora o mundo se movia, tudo acontecia, o relógio ainda tinha horas para mostrar e tudo era normal. Você deitou ao meu lado, os dois olhando para o teto, e depois de pegar minha mão, virou a boca na direção do meu ouvido e perguntou se eu não queria ver tudo de novo. “Quer me dar outro beijo?” perguntou entusiasmada e feliz, mesmo dizendo baixinho.

Virei o rosto, olhei dentro dos teus olhos gigantes e sorri, antes de fechar os meus e colar minha boca na sua. Foi igual, foi idêntico, como se agora eu já soubesse fazer a mágica acontecer. Senti o vento parar, os carros sumiram com seus sons incômodos, tudo ficou meio imóvel e nós dois, flutuando no ar, eramos as únicas coisas em movimento ali. Não só ali. Acho que nada no mundo se movia enquanto nos beijávamos, e eu lembro que nossas bocas não se separavam e a gente ria beijando de olhos abertos, fitando um ao outro, embaçados, perto de mais, brincando de controlar o tempo. Senti o impacto do chão duro quando nos separamos e agora ambos morriamos de rir da experiência absurda.

“Beijar você faz meu mundo parar”, eu contei, confirmando o que já estava óbvio. Você sorriu e me contou um segredo que eu já sabia, mas não tinha percebido que estava ali, nos esperando, me aguardando brilhante e macio para ser usado pelo resto da vida. “A gente não vai morrer nunca mais!”, você disse, e depois voltamos a flutuar.