Islândia

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Sonhei com a Islândia. Essa noite meu cachorro não dormiu nos meus pés, acho que esfriou demais e acabei sonhando com neve. Mas não era só neve. Havia uma estrada longa, parecia infinita, e eu dirigia um daqueles carros de filmes, tipo Mustang 68, sentindo a vibração do motor no volante, câmbio manual de seis marchas e os vidros abertos. Minha boca estava rachada do frio, mas eu não sentia dor, afinal, era um sonho.

Uma imensidão tão infinita que fazia me sentir pequeno, como se precisasse correr ao máximo para chegar próximo a algo de tamanho normal que pudesse devolver minha estatura. Nenhuma companhia, nenhuma placa, nenhuma casa, nada. A estrada e suas listras, um infinito campo de grama queimada salpicada de gelo até onde os olhos alcançavam, neblina no horizonte e, depois dela, montanhas e vulcões atravessando o céu. De vez em quando cruzava com um grupo de árvores, solitárias, juntinhas, como se passassem frio, tentando conseguir algum calor das companheiras.

Não havia relógio, só a velocidade alucinante do carro, o vento que eu não sentia, mas que bagunçava minhas roupas, secava minha boca e emudecia minha voz, mesmo que eu gritasse a plenos pulmões. Tudo ao redor era solidão, vastos vazios e esperanças. O céu tão cinza quanto a neblina se misturava com o horizonte e poderia ser tanto oito da manhã quanto sete da noite. Eu não saberia dizer com aquela luz e aquelas cores.

Não sou bom em interpretar sonhos, mas sei que muito daquilo estava ligado a não ter referências. Vivemos de referências para tudo, o preço das coisas, a hora dos dias, a idade, o Sol, o som, as formas. Não havia nada ali. Ao longe, no limite das formas que a visão podia distinguir, percebi uma curva. A estrada, pela primeira vez durante toda a viagem, faria uma curva. Algo estava mudando. Ouvi uma música da Björk muito longe, mas ela também podia estar vindo do rádio. Ela, assim como minha experiência, também era da Islândia.

Dirigi por um longo tempo indeterminado e então cheguei à curva que tinha visto muito antes. Pela primeira vez eu virava o volante e, por isso, percebi que durante todo o sonho o carro se dirigira sozinho. Senti a velocidade me jogando para fora do banco e me colocando de volta quando voltei a correr em linha reta. Então a velocidade do carro diminuiu, como se eu pisasse no freio. Senti uma presença intensa e instantânea, como se tudo acabasse de se tornar realidade. Percebi a textura do couro do volante, a posição das minhas pernas, as cores mais nítidas que antes e então, como um susto feito de mágica, cruzei com uma pessoa no sentido contrário.

Era uma garota pedalando uma bicicleta. Quando nos cruzamos ela sorriu e acenou para mim. Havia alguém no meu sonho, dividindo toda aquela imensidão vazia comigo. Acordei com calor sentindo meu cachorro se aconchegar nos meus pés.

 

foto albert oriol