Jacarandá

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Engravidei Vanessa no final de setembro, quando já começava a ficar difícil saber se os dias eram quentes ou frios. Nos enfiamos debaixo de um cobertor áspero encontrado dentro de um guarda-roupa fedido em um dos quartos da casa da minha tia e foi assim. Ela me conheceu porque meu primo namorava a prima dela, coisa de interior, simples.

Na primeira vez em que nos vimos ela estava chupando um grande talo de cana, de pé, calçando botas de cano baixo, shorts jeans, uma camisa de botões abertos que parecia ser masculina, um maiô branco e sozinha, no meio do canavial que havia na parte de baixo do terreno. Ela ficava me olhando e mastigava as fibras de cana, sorvia o máximo de água que encontrava e depois cuspia o bagaço no chão. Ao lado dos pés um facão de ponta chata. Parecia um bicho abusado fitando a caça ou o predador.

Duas noites depois eu já tinha decorado o caminho para sua casa. Pedalava de madrugada, subia uma ladeira cruel e me esgueirava pela sombra dos muros projetada pelos postes de luz amarela que ficavam de um só lado da calçada. Ela saía pelos fundos, sentava no cano do quadro da bicicleta com as pernas balançando do lado esquerdo e fazíamos o mesmo caminho da ida. Caminhávamos pelos corredores do casarão tentando não ranger as madeiras do chão e, quando encontrávamos um quarto novo, entrávamos como ladrões. A casa onde minha tia morava com meu primo e meu avô tinha uns vinte quartos ou mais. Nunca entendi o exagero.

Depois de quinze dias de férias comendo como um boi, pedalando por campos de capim ao entardecer, fazendo sexo com Vanessa e assistindo-a chupar canas de modo selvagem e erótico, voltei para casa. Quase dez dias depois chegou uma carta endereçada a mim. Naquela época não havia celular, nem internet, nem tecnologia. Vivíamos em um mundo arcaico comparado ao de hoje. Dentro do envelope com as bordas verde e amarelo dos correios uma folha de caderno surrada explicava tudo. Vanessa escrevia como uma pessoa semi-analfabeta e eu tinha dificuldade para entender algumas frases. “Estou grávida” ela fez questão de escrever com calma, em letras de forma bem definidas.

Seis semanas depois ela pariu um pé de Jacarandá-Mimoso, ainda mudinha, com meia dúzia de folhinhas verdes e um caule franzino. Viajei de volta para conhecer o ser que havia ajudado a gerar. Vanessa estava mudada. Agora dormia dentro da piscina, boiando como uma tábua de naufrágio. Tinha um semblante sério e desconfiado, como se enquanto eu estivera fora alguém a tivesse ensinado os segredos do mundo. Me estendeu a mão e me levou até o local do plantio. No meio de uma clareira no canavial, cercado por bagaços de cana chupada, o pequeno Jacarandá se exibia frágil e esperto. Uma planta formidável estava crescendo ali. Demos o nome de André. Hoje, bem no meio do mar de canas amareladas, a copa lilás e frondosa da árvore impressiona qualquer um.

 

foto derek wood