Lúcifer

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Atrás da casa, depois do galinheiro, havia um grande plano gramado, com mato ligeiramente alto, cravejado de algumas pedras redondas, onde ele gostava de subir vez ou outra. Em uma terra onde quase nenhum dia é completamente ensolarado e o céu permanece cinza por mais de dez meses, todos os anos, não é difícil ter a visão traída e perder algum detalhe na paisagem. Lúcifer sumia diante dos olhos dos menos treinados e misturava sua forma imponente ao contorno das montanhas, ao escuro da sombra das nuvens e aos arbustos sempre verdes escuros demais.

Lúcifer era um bode negro. Ele ficou por ali quando a dona da casa morreu. As galinhas morreram sem terem quem as alimentasse. Os cães ficaram um tempo e depois também fugiram atrás de comida. O bode ficou. O motivo era simples: havia grama para comer, havia o grande lago no horizonte para beber, e havia uma imensidão selvagem para descobrir. Era óbvia a decisão de permanecer próximo à casa onde fora criado. A velha se chamava Margherite, nascera já com 60 anos e nunca pôde experimentar juventude real. Como não conhecia o contar do tempo, não soube envelhecer. Se tornou algo entre a eternidade e a completa alienação da realidade. Morreu com mais de 200, forte como um penhasco, vítima de um fungo que acometeu as louças da casa e a contaminou por dentro.

Assim como a dona, o bode não soube bem contar a passagem do tempo. Não comemorou aniversários, nem contou o número de natais que se passaram enquanto corria pelo campo e chifrava o vento. Dizem que havia muitas árvores, mas Lúcifer, incomodado com a maneira como elas interferiam na paisagem, derrubou todas à cabeçadas. Se é lenda ou fato, não sei. O fato é que o bode tornou-se velho demais para o mundo em que vivia e, em determinado dia, quando foi convidado a partir, ele decidiu ficar. E ficou. De tão velho passou a não envelhecer mais, como se o tempo o tivesse esquecido, por capricho ou por descuido.

Depois de muito tempo, um tempo além da nossa própria noção de dias, anos e séculos, Lúcifer aprendeu a se esconder. Ele sentia que a hora de ir embora de vez estava chegando. A cada dia tinha a certeza de que o prazo final estava se aproximando, que viriam buscá-lo novamente e que, dessa vez, não haveria como ficar. Então ele se escondeu. Preto, com chifres perfeitamente curvados e negros, passou a ficar parado sobre pedras igualmente escuras, com o intuito de despistar a Morte, o Destino e a História, três irmãos que ele insistia em ignorar.

No dia que eles vieram, as moças na frente e o rapaz logo atrás, não encontraram o animal. No campo imenso, seguido de um lago que banhava o resto do mundo todo, não havia uma forma sequer que pudesse parecer um bode. Então, cansados da viagem e sem vontade de fazerem uma terceira visita, deram a sentença: Lúcifer ficaria, para sempre, preso em um dia, um único dia, sem interferir no mundo e sem ter que sair dele. Desde então o bode não se esconde mais.

 

imagem autor desconhecido