Namastê

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No canto da mesa, logo no caminho da porta, o bilhete largo, dobrado porcamente, escrito em um papel cor de rosa dramático. É que tem vezes que é preciso uma conversa franca, em outras o melhor é uma ligação, uma carta, um e-mail ou coisa assim. Nesse caso era o bilhete mesmo, até um pouco mais longo que o normal, mas ainda assim, bilhete. Começava sem remetente, nem destinatário, e a letra trêmula atacava o papel com coragem. É o tipo de coisa que é escrita de primeira, sem revisão.

Dizia assim… “Imagino que deva ser complicado dividir amor comigo, mas também acho que poderia ser bem pior. Já não sei ao certo o que fazer, então passarei a fingir que não é necessário fazer mais nada. E se me perguntar, direi que não sei do que se trata, como se não houvesse tensão alguma. A partir desta manhã, tudo está bem again. Quem vive o que a gente viveu e passa o que a gente passou já sabe que amor assim não se desmancha por coisa besta cotidiana. Tô pra conhecer amor verdadeiro que acabou por uma foto de bunda ou um vestido decotado. A vida é bem criteriosa com as armadilhas que nos apresenta e nessa, felizmente, eu não caio. Então, como disse uma amiga, ‘eu conto sobre o meu dia, conto até 10, mas nunca, nunca mesmo, perco meu namastê’, e é isso que eu estou tentando fazer. Quero dividir meu dia com você, meu ‘até 10’ com você e, principalmente, meu namastê. Existem muito poucos motivos para ser infeliz e quase todos os motivos do mundo para viver bem. Não é difícil escolher, né? Te amo.”

Acontece que a sacada ficou aberta, estava ventando muito naquela manhã e, quando ela acordou, o bilhete/carta já tinha ido por baixo da porta, se esparramado no corredor e, como não tinha assinatura nem destinatário, acabou no lixo, junto com um monte de coisa sem importância.

A vida a dois é foda mesmo.

 

foto john riggs