Nossa vida daria um filme

Posted by in Uncategorized

1

A nossa vida daria um filme, mas é que a gente insiste em viver de um jeito comum, cumprindo todas as etapas que alguém disse que deveríamos cumprir para sermos alguma coisa algum dia. A gente entra na faculdade para ser uma coisa que a gente gostaria, mas na verdade a gente já é o necessário. Sozinhos, já temos tudo o que é necessário para sermos muita coisa, quase tudo, na verdade. Mas são raros os que têm coragem de sair da linha, escrever a própria sorte, abrir mão do julgamento ponderado para sermos taxados de loucos ou sem futuro. Quem é que tem futuro numa existência que começa em ritmo de contagem regressiva? O futuro é uma ilusão. O tempo não é linear. Você não é seu diploma.

Quanto mais quadrados e formais nos tornamos, menos especiais são nossas memórias. Claro que existem pessoas incríveis que deixaram sua marca na humanidade usando a academia, os livros, os registros e as teorias, mas elas são a minoria. Como um amigo me disse, o que acaba com os sonhos é escolher um caminho que não nos cabe. Quem escolheu o caminho que você está trilhando? Quantos arrepios emocionados você sente por semana? É de emoção que estou falando. Os anos estão passando e estamos cada vez mais caminhando para uma existência de controladas e brandas emoções. A juventude é um estado de espírito, não uma fase da vida. O corpo se renova à medida que nossos estímulos mudam. Temos de viver novidades o tempo todo para que possamos sentir o tempo correndo no ritmo correto. Se formos viver de acordo com o manual nossa vida nunca vai render mais do que uma menção honrosa. Podemos ser muito mais que isso.

Às vezes imagino cenários paradisíacos como estradas construídas em encostas de falésias com um litoral selvagem e inexplorado ao horizonte. Um carro potente cantando pneus em curvas perigosas com a lataria metálica reluzindo o sol imponente de fevereiro e o vento quente na face de um dos meus amigos que dirige como um imbecil pensando ser imortal. Uma daquelas amigas libertinas no banco do passageiro trajando nada mais que shorts e biquínis com os braços estirados pela janela, os cabelos soltos e livres agitados pelo vento e os dentes brancos expostos em sorrisos de êxtase. Uma cena fantástica filmada de um helicóptero, intercalando tomadas aéreas com closes e planos sequência pegando a frente do carro dançando de um lado para outro.

Penso nos romances fatais que surgiriam entre aqueles amigos galinhas eternos e as amigas que passaram a existência na Terra atrás do par ideal. Paixões arrebatadoras capazes de converter homens infiéis em pais de família e mulheres reservadas em exibicionistas depravadamente sensuais. A câmera pairando no ar sobre uma grua colocada por fora do quarto enquanto o casal, abraçados pelo escuro e desenhados pela iluminação alaranjada da rua, troca beijos lentos e úmidos ao passo que as mãos, completamente fora de controle, retiravam peça por peça  durante o momento em que a iminência do sexo passa a ser uma realidade clara na mente do espectadores. Uma boa trilha sonora, um jogo de enquadramentos e uma atuação digna de prêmio. Filmes da vida real com atores que nunca atuaram na vida. Nossa própria vida sem lei, sem regras e sem fronteiras, estampada em uma tela imensa com nossos nomes em bold passando em fade in/fade out nos primeiros três minutos de abertura.

Nossos melhores amigos empunhando armas, alvejando carros da polícia e deslizando suas vidas em fugas improváveis na contramão de rodovias interestaduais. Brigas com socos de verdade, sangue com temperatura corporal, hematomas que levam dias para sumir e palavras impossíveis de rebobinar ou pausar para ver em replay. Amigos com certo desvio moral e tendência para delitos apareceriam em assaltos a bancos, sendo presos, mordendo facas enquanto correm por plantações em fugas noturnas e chorando no escuro sentindo o insustentável peso do medo da morte. Nos nossos filmes a morte seria coisa séria. Só se morre uma vez em histórias como os nossos. Poderíamos ser os homens da lei, os justiceiros, os mercenários ou os delinquentes: todos os papéis nos cabem de forma justa e verissímil.

Brindes com bebidas caras, festas até o amanhecer, sexo explícito, drogas mais antigas que nossos próprios pais. Nossa vida, eufórica como gostaríamos que fosse, teria de ser regida por momentos de excesso. O exagero constrói heróis. Mulheres perdidas entre decisões que mudam vidas, homens tomados pelo ódio colérico e pelo desejo de vingança, crianças possuídas por forças malignas e misteriosas, idosos com poderes sobrenaturais, gêmeos clarividentes, combustíveis infinitos e frases que definem uma vida em três palavras. Um absurdo de fotografia, uma revolução em atuação e um orçamento infindável. Seríamos uma superprodução digna de fila nos cinemas, Oscar e Globo de Ouro, atores milionários e enredos indeléveis. Nossa vida daria um puta filme, mas a gente escolheu o caminho mais fácil.