O desejo de ir

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Era meu desejo, ir. Arrumei minhas poucas coisas, abandonei o que não tinha salvação, tomei um avião e fui, como era planejado. Eu desejava ir ao Marrocos, ver os arabescos, os azulejos, as fontes, os fortes, as cores, o cheiro, o gosto e, já no primeiro dia, senti aquele abraço quente que o mundo dá nos viajantes que, no meio de uma caminhada ao fim da tarde, se dão conta de sua existência em outro lugar do planeta, sozinhos, corajosos e empolgados com a descoberta. O deserto foi a porta de entrada para o velho mundo que eu iria ver.

No dia em que desembarquei na Inglaterra senti o ar úmido e gelado me invadir o nariz e foi como se, pela primeira vez em munto tempo, eu respirasse de verdade. Tem alguma coisa no ar europeu que me faz sentir em casa. Uma senhora, nada brasileira, falou comigo, no idioma dela, cuja pronúncia eu jamais tinha ouvido na vida, enquanto estávamos alinhados no corredor do avião esperando o desembarque. “Querida, quem você deixou pra trás?” e eu respondi “ninguém”, porque não era possível responder nada diferente. Tem essa coisa de ser poliglota quando se toma um avião rumo a um continente distante.

Fui apanhada no aeroporto por um homem pelo qual me apaixonei no instante em que ele sorriu. Um homem cujos olhos já não eram desconhecidos e cuja língua já havia lambido meu coração. Era outro tempo, em outra estação, cortados por um sol implacável e com os pés sujos de areia. Existe uma certa nobreza em se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa. Daquele dia em diante eu já não tinha passado, dia após dia se descortinando à minha frente, muitas páginas de desenhos aquarela, palavras difíceis e semblantes de admiração. A vida mudou de roupa quando cheguei até lá.

Essa vida paralela me obrigava a contar as horas em outra ordem, números embaralhados, lugares e fotografias com outro significado, um gosto amargo e doce no final da língua e o desejo de nunca dormir. Eu não queria dormir. Mesmo tendo semanas livres para me aventurar por onde quer que fosse, sentia o peso dos minutos indo embora a cada novo sotaque, a cada passagem de trem, grama de parque, pint de cerveja preta, entardecer congelante. É uma obrigação do viajante ter a coragem de se entregar às mágicas que o mundo usa para nos convencer de que está tudo bem quando não estamos perto de casa.

Corridas de cavalo, canecas imensas de cerveja, quartos de hotel, sexo diário, juras de amor sem dizer uma vez se quer “eu te amo”, fotografias, a pele melhor do que nunca, “meu deus esse cara é muito gato”, beijos apaixonados longuíssimos, risadas fáceis, mapas, internet ruim, “where do we go now?”, histórias de pessoas, centímetros e mais centímetros de pele para descobrir, cabelos de ouro, olhares cúmplices, ingleses, franceses, alemães e brasileiros, todo tipo de comida, todo tipo de sonho, todo tipo de saudade.

Na Alemanha, de frente ao portão de Brandemburgo, me dei conta de que a aventura de viajar apaixonada é um crime que nos beija com os lábios úmidos e nos aperta a cintura com firmeza e devoção. Um click de ação me trouxe de volta para a realidade e ela era linda. Era meu desejo, ir. Então fui. Outra vai voltar pra ocupar o lugar que eu deixei. E fará isso da forma que puder, sem pressão.

É que é uma ressurreição voltar de viagens assim…

 

foto  nadia tarra e arnaud ele