O peso das coisas

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Às vezes a gente só ficava juntas, sentadas na sala sem dizer quase nada, vendo o sol atravessar as cortinas pintando os móveis velhos, todos meio marrons, enquanto meus pais trabalhavam. Meu irmão morreu quando eu tinha doze. Ficar sozinha sempre foi um problema para mim, mas ela nunca deixava que eu me preocupasse com isso. Sempre estava comigo, mesmo que não quisesse, mesmo que estivéssemos brigadas. A única vez que ela ficou sem me ver por alguns dias foi quando eu contei que havia perdido a virgindade. Foi com meu primo no dia anterior. Naquele dia descobri que ela era aquele tipo de garota que acha que as mulheres que gostam de outras mulheres jamais deveriam se interessar por homens. Bem, eu me interessava por quase todo mundo, na verdade.

Achava lindo ficar olhando os meninos mais novos correndo no pátio da escola. Sentia uma profunda conexão com eles, como se fossem extensões do meu irmão, mas ao invés de querer abraçá-los, sentia vontade de tirar suas roupas. Adorava imaginar as pessoas nuas. Idosos, inclusive. Imaginava suas peles pálidas enrugadas na cintura, manchas de sol espalhadas pelas costas, sardas tomando todo o colo. Me agradava pensar no vestiário masculino dos garotos que jogavam basquete durante a tarde. Gostava de imaginar que qualquer um deles seria extremamente interessante durante uma tarde de sexo sem compromisso. Não tinha critérios ou padrões, adorava a imagem das pessoas. E foi por causa desse intenso desejo pelo mundo que conheci Elisa. E pelo mesmo desejo ela se sentiu traída por mim quando soube que um rapaz tinha transado comigo. Meu primo. De terceiro grau. Mais velho. Que morava em Teresina.

Eu sempre me confundia em relação ao meu status com ela. Às vezes pensava que estávamos namorando, então flagrava Elisa se agarrando com garotas novas no lugar onde costumávamos nos encontrar depois da aula. Isso acontecia com mais frequência em épocas em que brigávamos. Eu, então, entendia que éramos apenas amigas, mas não era necessário esperar muito tempo para que ela surgisse pedindo desculpas e me enchendo de explicações. Eu nunca me ofendi por vê-la com outras meninas. Eu até gostava, na verdade.

Uma vez vi uma garota da escola com a mão dentro da calça da Elisa. Senti uma intensa vontade de tirar minha roupa e ficar ali, olhando, sem saber exatamente o motivo. Eu não sentia ciumes dela, mas ela sentia de mim. Não assumimos compromisso nenhum, mas ela me cobrava certa exclusividade. Eu tinha apenas dois sentimentos predominantes por Elisa: amor e medo. Amava-a como uma parte de mim que não coube dentro do meu próprio corpo, mas que era de fundamental importância para que eu me mantivesse viva. E sentia um medo atroz de que ela um dia fosse embora e eu, vítima da perda de algo insubstituível, morresse, literalmente, de saudades.

Bem, a Elisa se foi, e eu continuo aqui. Às vezes a gente simplesmente calcula mal o peso das coisas.

 

*foto rebekah campbell