O seu último adeus

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Se é a sua vontade, pode ir, vai. Mas antes me deixa ficar com algum pedaço seu, alguma lembrança oca, uma ilusão qualquer pra me agarrar quando a saudade arrombar a porta aqui de casa. Uma dor de saudades de você deve ser o bicho mais próximo da morte que um homem pode enfrentar sem ter morrido. Te perder é morrer sem ter direito a descanso, eu acho. É isso mesmo, acho que é isso. Então já que é pra ir, me deixa essa lembrança?

Me dá sua mão. Me deixa chupar teus dedos, sentir o sabor salgado da sujeira das suas mãos, o gelado dos teus ossos, o tremular do seu corpo quando se lembrar do calor que minha língua tem. Me deixa ficar com esse seu sabor de mulher maldita preso na boca. Quero chupar teus dedos finos um por um, com calma, e vou dedicar uma atenção especial aos teus anéis, nossa aliança, nosso elo e nosso martírio.

Quero te ver nua pela última vez, como um quadro de carne e osso que um dia eu tive em minha casa. Me deixa ver seu desenho, seu formato, decorar de novo todos os seus sinais e estudar detalhes para tentar fazer uma cópia. Um dia, se Deus quiser, vou conseguir fazer uma cópia. Quero te refazer de um jeito que eu consiga aguentar, que meu coração não morra ao menor sinal de dúvida e que meus cabelos não percam a cor esperando você chegar.

Quero percorrer com a ponta dos dedos cada risco marcado na sua pele. Suas estrias, sua bunda mole e esparramada na cadeira, seus peitos cansados e o bafo horrível da sua boca quando é de manhã. Preciso de algum consolo, alguma garantia, algo que me puxe de volta e me faça dizer “tá vendo, ela não é perfeita, essa mulher não é tudo isso” pra eu poder dormir em paz. Você é tão mais que tudo isso, um ser humano quase irreal. Não vai ter paz, já sei, e as suas imperfeições de mulher são parte de todo esse monstro cruel que agora está me deixando só. Na minha solidão até seus piores defeitos me serviriam de companhia.

Eu pediria pra você ficar se houvesse alguma força, mas o sofrer de te ter querendo ir é maior do que o de te ver indo pra não me ter mais. Que seu rosto petrificado continue lindo e que seus sorrisos se mantenham avassaladores, mesmo que agora sejam presentes endereçados a outro homem. Que seu suor continue sendo mais forte que o sal da terra, seus cabelos mais negros que o silêncio da morte e que, se puder, não se esqueça de mim. Tenho fé que vais rezar para que eu fique bem porque sei que só de me desejares o que é bom a vida já se desamarra toda.

Esse é seu último adeus, eu sei. É ruim demais deixar alguém pra trás, não é?

 

foto giovanni lipari