Onde você foi?

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Desse vento úmido e frio que invade a casa no fim de tarde eu só sei o nome: Vento. Não o conheço, não sei nada sobre sua origem, nem sobre seus interesses, mas me abro com ele como se fossemos amigos antigos. Contei a ele que ando esperando que você volte, que tudo se encaixe como tábuas de uma parede que se desmancha para uma reforma breve. Cada tábua tem seu lugar específico, cada vida tem seu par exato. O meu é você. Até o Vento já sabe disso. Eu continuo esperando.

Desse barro gelado que eu piso descalça todo dia de manhã também não sei muito. Sei que toda vez que uma lágrima minha corre do rosto e se mistura na terra molhada do chão nasce uma planta carnívora. Tem milhares delas por todo lado e no fim de tarde quase não se vê mais mosquito voando. A vizinha disse que elas vão crescer, desenterrar suas próprias pernas e comer a casa da fazenda, mas não sei se vai ter coisa interessante para elas lá dentro. A comida acabou há meses. Vivo da luz do outono, esse cinza opaco estranho que aparece e fica quase o dia todo.

Fico olhando para o horizonte sentada na varanda e penso onde foi que a corda que nos unia começou a desfiar. Porque esse tipo de coisa, de cordas que se partem, nunca acontece num estalo, num segundo. Leva um tempo, as linhas vão se rompendo aos poucos, vai fragilizando o conjunto todo e então, num dia, como já era de se esperar, ela estoura. A nossa corda estourou e eu não vi nada acontecer, não vi onde foi que desfiou tudo, que perdeu a liga, a força. Eu perdi a força quando você não voltou mais.

De vez em quando, se fico sonolenta olhando o quintal estragado cheio de lama, vejo um flash do casamento. O altar, as meninas vestidas de amarelo, minha mãe orgulhosa e você, com as mãos fechadas na frente do corpo, sorrindo. Você parecia tão feliz. Depois, quando volto a focar só a desgraça que o horizonte da casa se tornou, me lembro em preto e branco do meu rosto no banheiro, das escadas, do som da madeira rangendo e da maçaneta redonda da porta. Lá dentro, você, com o traje impecável da cintura para cima, as calças abraçadas nas canelas, metido no meio das pernas da sua irmã, e o vestido dela cobrindo o rosto. A voz dela se satisfazendo do primogênito da família, meu marido havia pouco mais de meia hora e sua voz, arfando de êxtase, se perdendo no ar quando me viu na porta.

O primeiro grito, como um tiro de garruncha, você se atirando no chão, ela inutilmente tentando subir as roupas de baixo, meus joelhos batendo secos na passadeira da porta, o vidro se estilhaçando no fundo do quarto e você passando pelo meio dele, sua irmã correndo para o banheiro descalça com as meias rasgadas, meu segundo grito mergulhado em lágrimas, o som das telhas desmoronando no chão lá fora, ela gritando dentro do banheiro e eu gritando fora e, ao longe, o som forte e ritmado do seu cavalo indo embora pela estrada no meio da noite. Você fez um par de gêmeos deformados na tua irmã, naquele dia.

Pesadelo agora, só acordada. Quando durmo ainda sonho com o dia que vou ouvir o som do cavalo e você, vestido de noivo, com o terno puído e sujo, vai me encontrar aqui, vestida da mesma maneira que estava quando você pulou da janela do segundo andar depois de engravidar sua própria irmã na cama onde teríamos nossa noite de núpcias.

 

foto paolo del frate