Os potes

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Os potes todos organizados, lado a lado, cores e tamanhos, na ordem. Todos amontoados nos armários da cozinha do fundo, vazios, sem serventia. Tupperware morre de fome em casa de rico, você sabe. E eu sou rico. Rico pra caralho. E essa cozinha do fundo é a cozinha de lembrar que um dia a gente não foi rico. É cozinha de fogão de quatro bocas, microondas da linha branca da Continental. É a cozinha do tempo do “é o que tem, é o que dá”. Mesa com conjunto de quatro cadeiras, toalha rendada e cortininha no vitrô basculante. Fica dentro da nossa casa de veraneio essa cozinha. É no deserto.

A cozinha da casa mesmo é no centro, sem paredes, sem potes, com móveis que não passam da linha da cintura, coisas quadradas, retilíneas, pretas, minimalistas e lindas. Tenho um apreço especial pelo que passa do nível do bonito. É linda a cozinha, a casa toda, as peças de arte, as pinturas, as paredes, as palmeiras e os cactos do lado de fora e a forma como o sol desenha figuras de sombra no fim da tarde. Quem vê de longe, no meio do laranja e marrom do árido, nem imagina a fartura dos nossos armários e bolsos. A gente tem muito, não demais.

Do telhado, ao lado da piscina de cima, tem um mirante para olhar o deserto. E quem me pega ocioso à tarde consegue ver, lá longe, a linha de poeira e desespero que sobe da terra, o ronco de um motor de máquina nova gritando com o vento no vazio e o tempo se dobrando a cada curva inventada. E eu corro até o limite de onde as engrenagens aguentam, dou risada, mostro os dentes, grito, berro e canto a plenos pulmões por detrás do volante cor de creme. E agradeço por ter acreditado. No deserto que eu escolhi pro meu veraneio, bruto e selvagem, macio como pedra calcária, a coisa mais viva do mundo sou eu mesmo.

E quando volto pra cidade está tudo lá. Meu bicho de estimação, os tecidos que eu gosto de acariciar, pano e pele, tudo no lugar onde eu deixei. E eu sorrio satisfeito, contente da forma mais pura que alguém pode se contentar, e vejo as caixas, as banquetas e uma porção de móveis dos quais não faço a menor ideia do preço. Mando levar, e levo, porque sempre tenho, sempre terei. E ter, é bom lembrar, partiu do crer. Se tenho é porque acreditei que tenho. E se acredito, seja no ter, seja no deserto, seja na máquina, seja na vida, então tenho. E pronto.

Os potes continuam lá, parados, acumulados no armário dos fundos, como quem serve de troféu a um atleta de sucesso que ainda sente o peso da primeira medalha, a mais feia, a mais surrada, a mais difícil de conquistar. Os potes são o troféu do passado. Eu sou o campeão do presente. Segue o baile, a riqueza, o sentimento e a fartura.

Já tenho. É só sorrir.