Pensativa

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Ela pensava muito, o tempo todo, daquele jeito que deixa o corpo inquieto, agitado além da conta. Pensava sobre o tempo, sobre o sol que não veio, sobre as contas pra pagar, sobre mudar de casa, de cidade, de emprego, de cor de cabelo, de carro, de vida. E queria entrar na academia, ficar mais gostosa, ou botar uns peitos, ou fazer uma tatuagem, ou virar um avatar e sair pulando de árvore em árvore super azul e com um rabo sensacional. Pensava o tempo todo em tudo, junto e não chegava a conclusão nenhuma.

Então pensava sobre a bagunça da casa, sobre as compras que ninguém fez, sobre como ser jovem e morar sozinha é complicado, sobre como tudo que existe para solteiro custa o dobro e vem a metade. Pensava sobre as pessoas que vão jantar em casa no final de semana, sobre o que ia cozinhar, sobre o que tinha que comprar só para cozinhar e sobre o motivo de ter marcado com tanta gente, se não daria conta de fazer comida para todo mundo. Pensava sobre os lugares na mesa, sobre quantos pratos tinha, sobre a bagunça da casa de novo e sobre ter que lavar o banheiro, porque visita tem que ver banheiro limpo.

Aí pensava que a hora não passa, que o trabalho está chatíssimo, que só tem gente incompetente nesse mundo e que, só por isso, merece uma cerveja depois do expediente. Mais que uma cerveja, merece uma ida ao bar com as amigas sem hora para voltar, só a mulherada, “girls night out”, paquera, gente nova, qualquer coisa que anime o fim do dia. Depois pensou que ia acordar tarde no dia seguinte, esquecer celular e despertador, ia se dar a manhã de sábado só por capricho.

Mas depois pensava que pra sair precisava se preparar, e o cabelo não estava nos melhores dias. Pensou sobre a cor das unhas, sobre uma sandália que viu em uma vitrine dias atrás, sobre o vestidinho sensacional que está emprestado pra amiga. Pensou sobre a depilação, que ia marcar na semana anterior mas a esteticista estava doente, depois lembrou da sobrancelha, e lembrou que acabou o batom rosa “de balada”. Pensou sobre todas as coisas, tudo de novo, quatro vezes, em ordens aleatórias, acrescentando novos assuntos, tirando alguns menos relevantes e no meio do fim do expediente, no meio da nuvem de pensamentos malucos, o celular acendeu com uma mensagem: “estou na frente da sua casa. Sai mais cedo do trabalho hoje?“, leu.

Aí não conseguiu pensar em mais nada…