Que se abra!

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(Estou enferrujado, esse é só para aquecer e voltar…)

Saiu de casa cedinho, não devia ser nem 6h da manhã, numa quinta-feira sonolenta, fria, nublada, úmida, nem um pouco atraente a quem quer que fosse. Os cachorros vadios não estavam lá. Os gatos selvagens deviam estar dormindo debaixo de alguma garagem, algum telhado quente, junto com morcegos, aranhas e pombas, porque não tinha nenhum ser vivo na rua. Nem bicho, nem gente. Chinelos Havaianas tamanho 36, canelas calejadas, pernas finas e lisas, peladas, que terminavam dentro de um vestido de mangas de cor crua, cor de nada. Cabelos presos em formato de bola por trás de um cocar indígena de penas fartas e tramas bem costuradas, a pele arrepiada pelo frio, uma vela acesa em uma mão, um galho grosso de árvore na outra. Tinha 16 anos, a menina, na época. Ontem.

Caminhou pela rua até o fim, até onde o asfalto ganhava formato de gota, num círculo de casas com os portões voltados para o centro. “Rua sem saída”, dizia a placa amarela na esquina a poucos metros dali. A vela, durante os passos no escuro, servia como uma lanterna das antigas, mostrando o pouco de chão que se apresentava nos próximos metros. Quando chegou no centro do fim da rua perdeu algum tempo, indefinido, olhando para longe, como se pudesse ver além da escuridão, dos postes queimados, dos muros das casas, das fronteiras da cidade, do mundo inteiro e do tempo que a vida tem pra viver. Viu além e colocou a vela acesa no chão. O fogo não se abalou.

O galho grosso era segurado, agora, com as duas mãos, à frente do corpo, em uma posição horizontal na altura do peito, com sua extensão perpendicularmente alinhada com o centro da chama da vela. Fechou os olhos, mesmo que o escuro já a tivesse privado de qualquer paisagem, e começou a dizer coisas. “Pelo homem que assistiu à reunião. Pelo tipo de gente que anda com as mãos no chão e os pés no céu. Pelo animal que tinha tempo demais para gastar e preferiu morrer. Pelas flores pretas do jardim do além. Pelas árvores que nascem com raízes azuis.” Seguia recitando uma espécie de agradecimento. Uma lista enorme de nomes decorados que mereciam uma menção durante seu ritual.

Era uma garota de 16 anos, na madrugada de um dia frio e úmido, no ano de 2013, no início de outubro, com uma vela acesa colocada sobre o asfalto no fim da rua de sua casa, segurando um cajado de madeira falando sobre criaturas, acontecimento e pessoas que não cabem no espaço da fenda da porta do mundo real. Não eram reais, para nós, mas eram alguma coisa e isso bastava para fazerem parte daquilo. Enquanto falava, a chama da vela crescia, cada vez mais alta, fina como uma linha luminosa levantando na escuridão. De repente sua voz adquiriu ares de fúria, como se desse broncas ou acertasse contas com alguém. “Pelos que são de ontem. Pelos que viram o que não vi. Pelos que são o que são. Pelos que vieram para ir. Pelo que foram para mais além de ontem. Pelo ontem que nunca será hoje, nem amanhã, nem eternidade.” E seguia falando, cada vez mais rápido, mais ríspida, mais alto, com a chama mais perto do cajado.

No exato momento em que o fogo em formato de linha tocou a madeira, ela segurou a cabeça do cajado com a mão direita, num movimento rápido e preciso, girando o galho sobre sua cabeça algumas vezes para, no fim, segurá-lo com as duas mãos e bater com a ponta no chão, com força, esmagando a vela em sua totalidade, sem errar, sem cair para fora, sem espaço para imprecisões: “QUE SE ABRA!”, berrou com toda força que sua garganta e seus pulmões puderam imprimir. O cajado tocou no chão, as calçadas se afastaram, os carros estacionados saltaram para o alto em um ballet descoordenado de destruição,  com barulho de metais retorcendo, vidros quebrando e a rua se abrindo ao meio em um buraco visceral como um corte de faca cega.

Era o inferno lá  no fundo, com luzes alaranjadas e líquidas dançando por todo lado, enquanto o bairro todo se retorcia numa onda sísmica que não ia parar. E foi se alastrando, levando o resto da cidade, abrindo cada vez mais, levando lagoas, mares, montanhas e paisagens inteiras. Árvores, fotografias e histórias, tudo sumindo no terremoto mais ráp0ido que já existiu. No fim uma onda se encontrou com a outra, do outro lado do mundo, se chocaram com força e velocidade equivalentes e assim como a física mandou que fosse, voltaram pelo mesmo caminho que foram. Tudo foi voltando ao lugar, as destruições se arrumando, os vidros quebrados se juntando em poeira no ar até formarem janelas, casas, prédios, rios inteiros e no fim, fechando a cratera aberta no meio da rua como se nada houvesse acontecido.

Ela olhou ao redor e não viu nada nem ninguém. “É, funciona”, disse curiosa, antes de caminhar com os chinelos úmidos, o cajado com a ponta suja de parafina branca e os cabelos soltos deitados nas costas até arrastaram no chão por trás dos calcanhares, surgindo da cabeça adornada pelas penas de pássaros que já não existem mais, presos num cocar de índio do futuro que não pertencem à nossa história. Ninguém viu. Ninguém ouviu, Ninguém soube. Mas só de estar escrito, já é real.