Quem não atira, não dança

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Na minha terra sempre foi assim. Tem que saber das coisas da vida, do girar do mundo e tem que saber atirar. A felicidade vem da segurança e isso a gente só consegue na base da bala. Matando um leão por dia, um vizinho por hora, derrubando e sambando de felicidade. Lá sempre foi assim e acredito que se hoje, meio que por acaso, eu tropeçar e cair lá, vou perceber que nada mudou. Não muda porque funciona e em time que ganha a gente não mexe.

Aposta-se uma vida em troca de outra e perde-se duas por não saber jogar. Tinha gente que ficava órfão antes mesmo de nascer, pois chegava ao mundo para dançar com a aposta já feita. Era assim todo dia, até morrer quase todo mundo e o jogo começar a se tornar familiar, simples e as vitórias começarem a vir. A vida é como o quintal da minha antiga casa, que crescia todo dia, engolindo a casa dos outros, derrubando as cercas e os murados pra se esticar até onde os olhos enxergavam. A gente sentava na varanda, todos o Braz, e assistíamos ao final do dia o quintal “enlarguecer”, como dizia a minha avó.

A gente ria, deixava tomar conta de tudo, arriscando causar briga com os vizinhos, com os outros moradores, com os outros sobrenomes, mas ninguém sentia medo. A gente dançava, se é que você me entende. Lá em casa todo mundo sempre viveu na beira da saia, de passinho em passinho, sem coreografia, sem ensaio, só dançando em paz. A paz, essa coisa branca e bonita que todo mundo quer, mas ninguém reconhece quando já a tem, só vinha porque a gente sabia dançar bem, muito bem.

Sendo assim, era de se esperar que todos fossemos bons de bala. E eramos ótimos! Matávamos um problema por dia, uma saudade por hora, um desejo por minuto e vivíamos rindo e deitando cartuchos vazios pelas varandas e terrenos da casa. Nossa família, indivisível como os dois lados de uma moeda, atirava a esmo, acabando com os outros existentes, com os nomes que a gente ouvia só ao longe e íamos crescendo nosso espaço, nosso mundinho “Brazeano” até o quintal virar o próprio mundo e a propriedade perder autoridade.

É o mal de crescer-se demais. Perde-se o controle dos pedaços menores, mas importantes. E aí a gente dançava, para rir a falta de controle, a bagunça, a anarquia e a desordem. Qual é o Braz que não admira a desordem? A gente seguia atirando no horizonte, m,atando o Sol pra trazer a Lua e continuava a festa ao redor da fogueira, num lugar onde as estrelas iluminam os caminhos que a pessoa deve seguir na vida, para no fim, virar estrela guia também.

A moral da história da casa que não se contentava em estar no centro era a de que, para sorrir, era preciso se arriscar e que, para correr riscos, era preciso saber morrer, como quem perde no jogo hoje paga ganhar amanhã. Meus parentes nasciam todos os dias e ninguém duvidava de ninguém. O sangue vale mais que a palavra e a conversa era feita no solado das sandálias. Eu ficava na porta, esperando o mundo se esticar e dar a volta no planeta até chegar pelos fundos, nos varais da casa e se acalmar para todos dormirem. A gente atirava pra todo lado, perdendo e ganhando tudo, mas crescendo todos os dias.