Questão de tempo

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Há muito tempo ando em busca de algo maior. Sonho, há anos, em ser algo grande, algo importante, algo além de mim. Olhando para fora, para além da sacada do meu apartamento, meus sonhos parecem uma porção de milagres prestes a acontecer. As luzes noturnas fazem tudo parecer mais significativo. Olho o horizonte noturno da cidade e tenho a certeza de que a vida me reservou alguma coisa maravilhosa para logo mais. Talvez não seja fama. Talvez não seja dinheiro. Talvez não seja nada do que eu conheço. Mas ainda não veio, virá, mas não veio.

Essa coisa de “veio” e “não veio” é uma bosta. Na verdade nada vem. Ou a gente acha, ou busca, ou cria. Geração espontânea não é o tipo de teoria que rege grandes feitos na vida de ninguém. Ou nos comprometemos, ou não nos comprometemos. Tem uma frase do Ayrton Senna que diz alguma coisa parecida com isso, não tem? Senna sabia das coisas, tanto que se tivesse vivo teria 50 anos e mesmo assim seria a mesma lenda que é hoje, morto. Horas atrás terminei de assistir um documentário sobre o Muhammad Ali chamado “Enfrentando Ali”. Os dez maiores boxeadores que enfrentam o cara se prestaram a dar depoimentos emocionados e honestos para um documentário dizendo o motivo pelo qual todo mundo tinha medo do cara e o respeita tanto hoje. Ele tá vivo, caso você tenha ficado na dúvida. Tem mais de 70, um Parkinson tão severo que mal o permite reconhecer pessoas queridas, mas está vivo.

Senna morreu correndo. É uma lenda. Ali desenvolveu Parkinson por causa das inúmeras pancadas que tomou na cabeça ao longo da carreira. É uma lenda viva. Que tipo de coisa a vida me reserva? Me tornar uma lenda doente, vítima da minha própria habilidade? Me tornar um ícone morto precocemente em virtude da minha própria ganância? Tenho uma frase dos Racionais Mc’s que faz uma pergunta importante que eu nunca soube responder: “o que você quer? Viver pouco como um rei, ou muito como um Zé?” Quem consegue responder?

As luzes mais distantes parecem piscar, enquanto as mais próximas são firmes como uma lâmpada no meio da sala. Por que a luzes do fundo piscam e as de perto não? Talvez seja a dúvida. Estão piscando ou não estão lá? Olhar longe demais tem esses problemas. A gente acaba vendo coisas que, ao alcançarmos, já não são mais como tínhamos visto pela primeira vez. Sendo assim, mesmo sentindo o cheiro de um chamado quase divino, sentindo o vento noturno bater dizendo que algo grande está por vir, tento me manter presente. O momento presente não me engana. O que é, aqui, simplesmente é. Sem piscar, sem mudar, sem deixar de ser. O futuro deve ser o atual dono do que um dia será meu. É uma questão de tempo… só tempo.

 

foto mark esguerra