Rotina

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De volta ao trabalho, rotina de todo dia, santo ou não, e não há quase nada que se possa fazer. Fim das férias, retorno aos dias de branco, de preto, de tudo quanto é cor. O mais interessante em voltar a uma rotina estressante e sólida como a minha é perceber que todo o tempo em que estive longe as coisas me esperaram. Fizeram isso porque são parte da rotina, são peças que não se movem, como um tabuleiro de xadrez que serve de enfeite e nunca será jogado por ninguém. Eu não jogo o jogo dessas pessas, só caminho pelos tabuleiros a que elas pertencem.

Acordei às 6h da manhã e os pássaros estavam lá. Eles sempre estão! Todos na árvore que fica na porta do meu quarto, na saída para o jardim, felizes pra caralho, piando loucamente como se fosse festa de dia dos pássaros domésticos em liberdade. Em casa a gente não tem gaiola porque criar pássaro em casa, na nossa opinião, é coisa de filho da puta, mas a gente cuida deles ali, na árvore, soltos mesmo. Estavam ali, como sempre estão todas as manhãs. Soltos, felizes e ali, piando, porque era segunda-feira, rotina sólida e imutável, do jeitinho que tem que ser. Estavam lá os pássaros, o céu da mesma cor, o despertador com o mesmo som e o banheiro uma puta zona como sempre é. Rotina: de volta a ela.

A padaria estava com os mesmos copeiros, com as mesmas caras infelizes, com os mesmos aventais surrados, me servindo o mesmo de sempre. “Dois pães na chapa e um suco de laranja, por favor”, eu pedi. Sempre peço o mesmo, e sempre vem o mesmo pão feio, com menos manteiga do que deveria, servidos num prato de plástico duro que dá até dó, acompanhados de uma jarra de suco de laranja meio amarelo. A jarra rende sempre dois copos se for com gelo dentro. Os mesmos dois copos, um pra cada pão, os mesmos dois pães, um pra cada olho na cara, orelha, mão, pé, rim, e tudo mais que a gente tem em par. Os pares estavam todos lá, como todo dia da rotina.

Caminhei pela rua até o ponto do trólebus, subi as ladeiras que vão sempre estar lá, passei na frente do boteco, do mercadinho, do mecânica, da pizzaria fechada e do galpão de madeiras. Estavam todos lá cumprindo seu papel perene de personagens de uma rotina de merda. A rotina é uma merda, mas tem gente que ama. Não é meu caso. Além de ser um saco já saber exatamente o que vai acontecer, mesmo torcendo por uma mudança, não gosto de ter que executar as partes ruins da rotina, que são ruins hoje, foram ontem e serão amanhã. Além disso, rotina deixa a gente apático, não emociona, não surpreende, não instiga. É o mesmo feijão com arroz, o mesmo papai e mamãe, a mesma trepada mal dada, o mesmo sorriso amarelo, a mesma merda igual todo o tempo.

O terminal tem o mesmo cheiro de esgoto com urina do lado de fora, o mesmo cheiro de pão de queijo recheado de fezes humanas no subterrâneo e, no meio do caminho, as vendedoras de chip da TIM se esforçam para fazer a voz mais irritante que podem, com o volume mais alto que alcançam: “Chiiiiiiiiiip da TIM naaaaaa promoçãããããã já vem com créééééééééééaaaaaadito!” e eu me arrepio de ódio de cada uma delas. Nas paredes os mesmos anúncios, os mesmos rabiscos e as mesmas pichações. O Teco ainda ama a Bia, o Junior ainda é cabeção e São Mateus ainda é “mil grau”, nas paredes do corredor que vai pra o trem. E a catraca ainda faz o mesmo barulho, as pessoas têm a mesma cara de sono e o lugar onde eu embarco ainda tem uma mancha de cimento no chão para não me deixar errar. A porra toda está sempre lá, num ritmo de rotina sem fim.

No trem os fones me entregam as mesmas músicas, com a mesma paisagem e o mesmo sol. A lotação do vagão não varia muito nesse horário, nem a velocidade do trem, nem o incômodo desses dois fatores somados a um dia quente. As mesmas músicas, o mesmo calor, a mesma lentidão, o mesmo cheiro de sovaco suado. O livro não é da rotina. O livro é novo, um que eu comprei no primeiro dia de férias e só comecei a ler agora. Mas o sentimento é o mesmo, a sensação de que o começo dos livros são todos meio estranhos e macarrônicos, assim como o começo de toda coisa que a gente aposta que é X e no fim se revela Y. A voz da mulher que “canta” as estações também não mudou, assim como a sensação de liberdade ao ouvi-la dizer “Tamanduateí” e anunciar a minha saída.

Depois disso vem a viagem para trás no metrô, só pra conseguir sentar e ler com mais calma, vem o trajeto todo, as mesmas estações, a mesma lotação, a mesma zona na passagem da Consolação pra Paulista, o mesmo trem sem maquinista no metrô na linha amarela, o mesmo trajeto estranho entre a Paulista e a Faria Lima, passando por dentro de plataformas que no futuro serão estações prósperas, mas que hoje são nada mais do que cenários de filme de terror um pouco mais bem cuidados. É tudo igual, a mesma rotina. Junto com ela o mesmo sentimento sobre tudo. Sobre o trabalho, sobre o futuro, sobre o dinheiro e sobre a felicidade. Busca-se felicidade cada vez com mais afinco em lugares cada vez mais errados. Eu, ao menos, busco errado assim.

Tem as memórias de lugares onde coisas aconteceram, de gente que sumiu e não vai voltar tão cedo, de gente que sumiu pra nunca mais voltar e de gente que ainda está bem presente. Tem o sentimento de saudade de um monte de outros sentimentos. Sinto, às vezes, falta de sentir certas coisas. É um monte de lembrança que ficou lá, me esperando, com memórias coloridas, quase como fotografias de câmera reflex, cheias de detalhes e nuances. Estava tudo ali hoje quando eu vim trabalhar. A obra eterna da Av. Faria Lima continua eterna, os carros continuam ocupando mais espaço do que as pessoas, os prédios continuam concentrando mais renda do que todo o banco central e eu continuo lembrando de uma porção de coisas que não vão se repetir. É a merda da rotina. Dentro e fora de mim, tudo se repete o tempo todo, só para não me deixar fugir.