Saramandaia da vida

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No cheio de pó, no cheiro de coisa frita em óleo velho, no cheiro de morte certa, no cheio de perfume de flores, tudo estava feito para a lembrança de que o tempo passa. A certeza do fim estava nestes cheiros, nas paredes escurecidas com o tempo, nos televisores de tubo e na disposição irregular das mesas e cadeiras. O Saramandaia é um mini mapa do futuro de todos nós, mesmo que o futuro seja agora. Eu quis ver como eu ia ser, quis ver lá na frente, adivinhar os próximos 20 anos durante quatro minutos.

O salão devia ter espaço para umas cem pessoas, mas se tinha cinquenta era exagero. Acho que uns quinze casais, uniformemente distribuídos pelo espaço, todos, sem exceção, aparentando mais de 60 anos. Sei que aos finais de semana a idade cai drasticamente, com casais quarentões e cinquentões muito bem conservados, mas não era o caso. Quarta-feira, noite, calor e eu ali, o único que não tinha um par.

Eu, quase fazendo 24 anos, era novidade no lugar. Os garçons me olhavam, o cara do som me olhava, o cara do balcão me olhava, o segurança da porta me olhava e eu, perene e sólido, olhava para todos eles com o máximo do brilho da juventude estampado na minha cara. Esse brilho se apagará, em breve, assim como o deles já se foi. Sentei no fundo, meio incógnito, pedi uma cerveja da grande, me acomodei e desliguei o celular. Eu não existia pra mais ninguém no mundo, estando ali.

Sendo Saramandaia, obviamente era karaokê. E depois de constatar isso com uma senhorinha de uns 80 anos cantando uma música da Alcione como se fosse a própria, comecei a ficar nervoso. Cantar é uma questão de se adaptar ao público e ao gosto dele. Não tem show do Iron Maiden no Castelo das Pedras. Não tem show do Mr. Catra no Fazano. É uma questão de adequação e, naquele momento, percebi que eu precisava me superar para ganhar respeito.

Ouvi Reginaldo Rossi, Chico Buarque, Roberto Carlos umas quatro vezes, MPB4, Milton Nascimento, um inesperado e atual Lulu Santos, um João Gilberto, um Toquinho e, de repente, senti que era minha hora de aparecer. Peguei o livro de músicas e, inesperadamente, era maior do que o dos karaokês “modernos” que eu frequentei. O cara do som chamava as pessoas por nomes, esperava-os subir ao palco e depois soltava a música, com uma educação rara nesse tipo de lugar.

“Carmem e Miguel, Lucinda, Oswaldo, Vicente e Anastácio, Hugo, Laura e Esmeralda, Francisca e Maria Isabel, Ernesto e Dalva” dizia ele, no microfone, e as duplas ou os cantores solos iam se levantando e indo em direção ao pedestal com microfone. Eram bonitos, bem vestidos, com toda a graça e a experiência que o tempo lhes deu. Cantavam sem olhar para a televisão, às vezes olhando uns para os outros, ou para o salão, e sorriam, e gesticulavam e se divertiam da maneira mais pura que se conhece: em grupo.

Eu comecei a ficar com o cu na mão. Ninguém me conhecia, ninguém me veria novamente, mas por algum motivo eu achava que tinha que fazer alguma coisa certa. Eu tinha que mandar bem. Todo mundo ali parecia saber cantar, como se cantassem sempre as mesmas músicas, ou como se fossem cantores profissionais, algo assim. Não tinham vergonha, nem insegurança, enquanto eu suava frio no cantinho, bebendo cerveja como se fosse água, já terminando a segunda garrafa. Quando, sem querer, ouvi meu nome nos falantes.

“O próximo a cantar é o senhor Daniel!” e todos, reconhecendo o nome incomum, olharam para mim. Era como um intruso que ninguém pode agredir, uma visita indesejada, um espécime raro de um vírus ruim. Eu tinha um plano, só um, sem direito a plano B, C, D, E. Eu tinha um plano, com uma música, com um olhar, com uma única apresentação. De repente cantar num palco de karaokê de gente mais velha me pareceu a coisa mais importante da minha vida naquele momento. Eu escolhi Clube da Esquina nº2, uma música que nem em sonho eu ousaria cantar, de tão difícil que é.

Ao subir no palco senti que as luzes se intensificaram, como se fosse importante mostrar exatamente quem eu era, mostrar que eu aparentava mesmo uns 20 e poucos anos, que eu usava camiseta, calça jeans e tênis, que eu não estava com a barba feita, que tinha a cabeça raspada, que tinham medo pra caralho de estar diante daquelas pessoas. Aí, como se fosse mágica, ouvi a minha própria voz ecoar no salão explicando que “se chamava moço, também se chamava estrada” e que aquilo tudo era pura “viagem de ventania”, mas era só o começo.

Algum santo baixou em mim, alguma coisa aconteceu e uma coragem inédita me tomou de uma vez. Quase como se tivesse bancando o Carlos Marighella cercado por policiais, fechei os olhos e levantei um ponho fechado em direção ao teto. E para quem viu, minha figura parecia uma imagem iluminista, brilhando no meio da escuridão, suando pelo canto da testa cantando uma das maiores fábulas de todos os tempos da música brasileira. Era a música perfeita para aquele momento.

No fim, ao cantar “e lá se vai mais um dia”, senti meus joelhos falsearem, como se estivesse em pé há muitas horas. No fim da canção eu fui aplaudido, com vigor, do jeito que se aplaude quando se gosta muito de alguma coisa. Eu vi sorrisos, recebi sinais de cabeça, gostaram de mim, eu passei, passei no termômetro do respeito da vida. Ganhar o respeito de um velho vale mais do que ter o respeito de cem jovens. Eu consegui, no fim do meio da semana, num clube da esquina que Milton Nascimento construiu para ninguém nunca mais destruir.

Paguei, saí, respirei e percebi que estava de camisa bege, calças com vinco, cinto, meias pretas, sapato lustrado e um blazer enrolado no braço. Envelheci 40 anos em 4 minutos de êxtase e devoção. Minha juventude foi dividida igualitariamente entre todos os presentes no salão e, já longe, caminhando para casa, ouvi alguém cantar Kid Abelha, só para garantir que tudo, naquele momento, já não fazia mais sentido algum.