Sem tempo

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Enquanto o tempo estiver assim, passando, sendo temporário, com dias, horas e anos, não vai dar pra te amar. Enquanto a vida for real, enquanto o mundo for humano, não vai ter como, foi mal. É que pra te amar tem que ser daquele jeitinho infinito, sabe? Daqueles amores que a gente não faz jura porque não tem dúvida, porque não precisa provar nada, só amar e ser amado. Ter você é ter tempo e se o tempo passar, acaba tudo.

Quero muita existência para poder te lamber devagarzinho, como um gato que toma banho, pra sentir o gosto de cada pedacinho de você. Quero vida pra poder sentir o seu perfume nas minhas roupas, pra achar cabelo teu preso no meu travesseiro, pra ficar de pau duro vendo a covinha no meio dos seus peitos no decote daquela blusa que você só usa comigo. Mas se o tempo passar o amor passa também.

Aí você me aparece dizendo que vai viajar, que o trabalho está em primeiro lugar, que são só algumas semanas, que nada vai mudar e de repente eu já mudei.

E aí já não te quero mais e fico pensando sobre possíveis substitutas para o seu posto. Não dá pra disputar mulher com o relógio, ele sempre vence e eu sempre fico com cara de nada. Se você me pede mais prazo, se me pede paciência, me pede para esperar, está pedindo para eu aceitar que o tempo ganhou novamente, e isso não dá.

Se você diz que vai ali na esquina comprar pão eu já fico agitado, pensando no que vou ter que pensar enquanto você não estiver. Fico lembrando do último beijo antes de sair, na sensação de calor que eu tenho quando chego perto, quando você me abraça ou coisa parecida. Fico lembrando do som da sua voz ao amanhecer, fazendo perguntas estranhas como “com o que você sonhou?” ou “tá frio lá fora?” só para poder conversar. Eu quero conversar com você pra sempre.

Só que desse jeito, indo e vindo, esperando, amando, esperando, trepando, esperando, beijando, tá difícil. Sou um cara carente, não preciso negar, mas quero que você supra minha carência. Física e psicológica, porque não adianta dizer que me ama todo dia, mas não ter tempo pra dar umazinha antes de dormir.

E eu não quero dar umazinha e só. Eu quero trepar muito, quero suar, quero emagrecer na cama, quero te fazer sentir, naquele último segundo de lucidez antes do sono apagar a luz, que você está satisfeita. Eu só estou satisfeito quando estou com você.

Aí você some, eu fico maluco, penso em um batalhão de mulheres pra ligar, pra chamar, pra amar, mas no fim fico sozinho, esperando, morrendo de esperar só você, perdido em casa, e todo dia um novo cômodo aparece, vai se multiplicando, vai crescendo e mais e mais e eu fico preso num labirinto sem ninguém pra me ajudar.

Começo a pensar sobre o tempo que não devia existir, sobre a espera inútil e tudo vai virando de cabeça para baixo, a casa vira uma centrífuga e eu me debato pelas paredes, pelas quinas, grudando em móveis e decorações. No fim sou só um restinho de mim que sobrou. Então você entra pela porta e fica tudo lindo novamente.