“Ser o que se pode é a felicidade”

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“Ser o que se pode é a felicidade”, escreveu Valter Hugo Mãe, um português malandro que escreve sem usar diálogos, sem usar travessões e sem usar pontos de interrogação. O que ele usa é sentimento e delicadeza, isso sim. Hoje no metrô eu li essa frase no livro O filho de mil homens escrito por ele e publicado pela absurda COSACNAIFY. Na verdade eu não li a frase. Tropecei nela na página 77, saí catando cavaco, quase caí de cara no chão da vida e quando me recompus senti alegria. Uma alegria simples, quentinha, que nasce no peito e se espalha para o resto dos dedos. Fiquei lendo a frase durante algum tempo. O Valter sabia que tinha escrito um milagre e por isso fez questão de botar essa anã de oito palavras numa linha separada do texto. Talvez ao escrever isso ele tenha descoberto, por epifania, o que é a felicidade, ou talvez já esteja careca de saber – ele realmente é careca – e colocou o dizer ali, separado, só para não correr o risco de não ser lido com a devida atenção.

Olhei pela janela do metrô com o livro ainda aberto e fiquei repetindo mentalmente que ser o que se pode é a felicidade. Ser o que se pode é a felicidade? É. Deve de ser, eu acho. Ao menos para mim é, depois de hoje vai passar a ser. Ser. Quero ser o que posso ser, só pra ser feliz. As portas do vagão se abriram, eu saí e no momento em que pisei na plataforma uma rajada de vento forte me tomou por completo. Era como o anúncio de que sim, eu tinha aprendido uma coisa de valor real. A gente vive angustiado e passa a vida na angustia de acabar com a angustia de estar angustiado em viver assim. A gente não quer nada a não ser paz, mas não sabemos disso. Queremos ser mais bonitos. Alguém quer ter certeza de que nunca será rejeitado por alguém. Alguém quer ter certeza de que é desejado por alguém. Alguém quer ter poder sobre alguém. Por que a gente quer isso?

Eu quero ser o melhor que eu puder ser, mas sem deixar de ser eu. É difícil, eu sei, também vivo no mesmo planeta que você, que está lendo isso tudo. Mas ser o que se pode ser é não se cobrar além das próprias limitações. Ser o que se pode elimina a chance de fracasso: você é e ponto, sem “mas” ou “poréns”. Ser o que se pode está além de aceitação. Tem a ver com reconhecimento, com auto-meritocracia. É se olhar no espelho e pensar “você é o que você pode ser?” e se a resposta for “sim”, acabou. Tá lindo, és feliz! Se a resposta for “não” a próxima pergunta deveria ser algo como “o que falta para você ser o que você é?” e depois caminhar atrás desse pedaço que falta. Ser o que se pode trata-se de ser completo, por inteiro. É como aquele poema do Fernando Pessoa, “sê por inteiro” e fim. Se V. Hugo Mãe se propusesse a completar o poema talvez a única coisa que ele escreveria seria apenas um “então és feliz” no fim.

“Ser o que se pode é a felicidade” é a frase. Escrever sobre ela tem a ver com o fato de eu ter passado uma semana sem escrever nada pensando sobre todas as regras e conceitos que aprendi no curso de escrita que fiz semana passada. Escrever sobre ela tem a ver com a fala da Marianna, minha amiga e revisora, que disse que eu me caguei ao fazer esse curso porque fiquei encanado tentando atender a regras que não são para o tipo de texto que eu faço. Não sei cumprir regras quando o assunto é viver. Escrever sobre ela tem a ver com as minhas expectativas em relação ao profissional que eu sou e quero ser, em relação ao amigo que eu sou e quero ser, em relação ao namorado que eu sou e quero ser. Escrever e dividir essa frase é quase a execução de uma obrigação, porque não é justo guardar só para mim um segredo tão valioso e simples. Quero ser o que posso para ser feliz. Sê inteiro com o que você pode ser. Isso é a felicidade, eu acho.