Sobre onde morrem as pessoas infelizes da cidade

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Com o corpo marcado de músculos, queimado de um sol que não sabe o que é trégua, e o tronco nu, exibido aos quatro cantos do mundo, berrou a plenos pulmões com as mãos para cima. Um urro gutural e longo, tão longo quanto o fôlego de uma pessoa desidratada consegue ser, que nadou na imensidão vazia de um deserto arenoso e selvagem. Era o quintal. Era o Brasil que Deus não criou. Eram lugares grandes demais para qualquer tipo de eco.

Paraíso tropical, fiscal e social, só que tudo ao contrário. Pobre até o osso, de gente brava com a vida e cansada de esperar a morte, aquela terra vivia presenciando cenas desse tipo. Explosões, surtos psicológicos severos, gente batendo pino no limite da existência gritando à beira das palavras, quando frases já não explicam quase nada. E ela, já querendo abandonar o corpo, gritava para não se sabe o que, nem onde, até desmaiar de exaustão.

Sozinha, com as mãos cheias de osso e fenda, gritou até o último ar, até a última força. Um pano leve, da cor do cenário, cobria o corpo da cintura aos joelhos comidos pelo sofrimento. O resto do corpo era coberto de nada além de histórias mal vividas, remorso, doenças ainda a serem descobertas pela medicina moderna e imagens de vidas passadas. Era um ser em decomposição ainda em vida.

É assim que acaba a vida de muita gente que eu conheço: um último grito de socorro num deserto que não se parece com nada que a gente já viu. O céu vermelho e quente como o inferno, lindo como as coisas que a gente ama, esmagando um desespero incurável. Acaba lá, nesse lugar esquecido que a gente um dia já visitou ou vai visitar. Muita gente acaba assim. Muita gente mesmo. E eles nem sabem como foi que chegaram até lá.

 

foto autor desconhecido