Solidão colorida

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Que cor tem a sua solidão quando já é quinta-feira, passam das duas, e você ainda não foi dormir? Que tipo de coisa você pensa? Como é a cara da casa vazia, com as luzes apagadas, a sombra das coisas iluminadas pela claridade artificial da rua e os móveis estalando com a oscilação de temperatura? Você pensa em quem quando não tem ninguém pensando em você? Eu, que já não sou grande coisa a essas horas, penso em você quando ninguém está pensando em mim. Penso e faço um copão de suco, mesmo que seja madrugada, pra ficar bebericando enquanto imagino seus formatos. Sim, suco, afinal já está fazendo quase cinco anos que eu parei de beber de vez. Um dia após o outro, né?

Arrasto os móveis ignorando o avançado das horas e coloco o sofá na varanda. Um das vantagens de morar no interior é ter uma casa com varanda grande o bastante para comportar um sofá e com vista interessante o suficiente para merecer minha atenção de madrugada. Eu, meu sofá e meu suco, juntos, três masculinos, pensando sobre seu formato e suas cores. No início receio imaginar formas muito nítidas, então me perco em coisas subjetivas como o timbre da sua voz, a curvatura dos seus cílios e o tipo de perfume que você usava quando a gente se via sempre. “Começar lentamente é o segredo para uma longa e próspera jornada”, li uma vez em um livro de sabedoria oriental. Pensar em você, para mim, é sempre uma longa e surpreendente viagem.

Depois me lembro do seu cabelo, de como ele nunca estava arrumado, penteado, planejado e, por isso mesmo, te deixava muito mais bonita. A beleza salta aos olhos quando é espontânea. Lembro dos teus olhos, daquela cor espantosa que eles têm, um escuro colorido difícil de encontrar, e às vezes lembro até das suas sobrancelhas, responsáveis por metade das vezes que li seu humor sem precisar ouvir uma palavra sua. Sempre gostei de ouvir suas palavras, ditas de forma tão displicente, tão como se tudo não valesse nada, tão qualquer coisa sem importância. Sempre considerei um talento essa sua mania de falar as coisas sérias como se fossem comentários banais.

Quando penso no restante das formas, suas curvas quase retilíneas, seu parco molejo e contorno e nas cores nada surpreendentes da sua pele, meus devaneios se enchem de flashes. Imaginar sua figura despida em posições comuns sempre me acelera o coração. Te vejo em pé em frente à geladeira, sentada no sofá com as pernas dobradas ao lado do corpo, sentada sobre a mesa comendo alguma maçã matinal, tudo sem nenhuma peça de roupa. São pensamentos que sempre me divertem. Nunca imaginei obscenidades ou pornografias, mesmo tendo uma imagem da sua nudez bem nítida na minha mente. Você, assim como é, já exala mais sensualidade e erotismo do que qualquer fantasia inventada que eu pudesse tentar criar.

E depois imagino pedaços do seu corpo que devem ser subestimados pelos outros, como suas axilas, a parte de trás dos joelhos, a lateral do queixo e o fundo da sua nuca, naquela parte que ninguém consegue dizer se é pescoço ou cabeça. Mergulho em cores invisíveis e me sinto inundado por tons e nuances de um arco-íris com o seu nome. Minha madrugada escura e silenciosa se revela cheia de vida, como um rabo de pavão que se abre de surpresa. Vejo flashes da sua nudez emoldurando sorrisos, olhares de soslaio, pequenos movimentos de dedos, o pressionar nervoso dos lábios um contra o outro e os contornos selvagens do seu cabelo com vida própria. Me perco nessa multidão de cores lisérgicas e inéditas enquanto me esqueço, segundo após segundo, da minha solidão monocromática e sem emoção. Minha solidão acompanhado de você tem todas as cores do mundo presas num piscar de olhos.

É por isso que fico pensando: que cor tem a sua solidão quando já é quinta-feira, passam das duas, e você ainda não foi dormir? Que tipo de coisa você pensa? Sempre quis saber…

 

foto steph verschuren