Suor

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Ela dava voltas na pista, uma porção delas, incontáveis para mim. Meio dia, calor, muito calor e eu na sombra, acompanhando só com o movimento dos olhos, as voltas que ela dava pra lá e pra cá. Foi assim que tudo começou. Eu olhava porque era curioso, porque corria sozinha, no pior horário e sem fazer manha. Primeiro comecei a pensar no motivo daquilo, se realmente era necessário, porque ela já tinha o corpo que as mulheres estavam buscando, já tinha o formato que as revistas queriam vender. Sofria de graça, na minha cabeça.

Mas eu gostava de ver. Chegava perto das onze horas, com um shortinho grudado que, no fim da corrida, parecia mais uma calcinha grande, um cabelão preto preso liso e as vezes camiseta, às vezes não, e eu não entendia o critério, mas torcia sempre pelo mínimo de pano possível. Depois comecei a ficar na grade, vendo ela passar bem perto, concentrada, forte, linda e morena. O cabelo preto tinha tudo a ver com a cor quase jambo da pele, e eu comecei a me preocupar muito mais em observar os movimentos, os balanços, do que a corrida em si. Até que um dia ela me viu.

Bem na minha frente, como se fosse predestinado, caiu o iPod no chão. Ela teve intensão de parar, mas ao invés disso, continuou, talvez para pegar na próxima volta, já que naquela pista ela era solitária todo dia. Mas eu fui antes. Pulei a grade, apanhei o aparelho no chão e fiquei esperando ela chegar, com o braço esticado, como quem entrega a garrafa d’água para o primeiro colocado da corrida. “Vem, vem, vem comigo…” veio gritando, de longe, sorrindo e eu já entorpecido com a vista daquela mulher vindo na minha direção, fui.

Passou voando e eu fui atrás, correndo rápido, enquanto ela diminuía o ritmo lentamente até ficar ao meu lado. Entreguei o aparelho, ela agradeceu, tocou as minhas costas e quando menos esperei já estava completando uma volta. Abandonei-a na corrida, cansado, ofegante e feliz. Daquele dia em diante eu sempre ficava na grade, e ela sorria para mim, eu sorria para ela. Aí comecei a levar uma garrafa d’água. Quando ela começava a fazer caretas eu estendia o braço, ela pegava a garrafa e devolvia na outra volta, quase vazia. Gritava “você é um anjooo…” e passava voando, suando em bicas, firme, rígida, seca e marrom.

Eu, moleque de tudo, tinha sonhos eróticos com aquela mulher. Por isso nunca ficava até o fim das voltas. Quando percebia que estava se preparando para encerrar o treino eu ia embora, caminhando por portas e entranhas do clube e ela só me via no outro treino. Às vezes, raramente, ela não ia. E eu ficava na grade olhando a pista vazia, lembrando do subir e descer de suas curvas, do pendular do cabelo e do sorriso largo. Ela sofria com prazer e eu sentia prazer em vê-la sofrer. Eramos um par sadomasoquista diferente.

Um dia, de surpresa, ela parou de correr na minha frente. Fiquei petrificado, não tive como fugir e meu coração acelerou a um ritmo alucinante. Ela veio com todos os seus trinta e poucos anos na minha direção e se apoiou na grade à minha frente. Com o tronco abaixado, apenas as mãos apoiadas, ela pingava o suor do rosto no chão e ofegava barulhenta. Nesse dia saiu da pista, veio até mim e me abraçou. Eu, com meus dezesseis ou dezessete, já era mais alto, e só pude abraçá-la de volta.

Enquanto estávamos ali, grudados, senti seu suor me encharcar a camisa, o ombro e uma parte do pescoço. Sentia, inevitavelmente, um cheiro azedo misturado com perfume doce que suspeitei ter surgido do movimento dos braços levantados colocados ao redor do meu pescoço. Eu respirava fundo absorvendo o máximo daquele cheiro. Quando ela me soltou, sorrindo, disse que eu era a melhor platéia que ela podia ter, e depois me deu um beijo no rosto, na ponta dos pés segurando a minha cabeça, antes de ir embora.

Ela, se acabando em suor, molhou a lateral do meu rosto na hora do beijo. Instintivamente passei a mão e provei do gosto. Um sal tão amargo e forte que me fez querer lambê-la toda, num absurdo imaginário de dar-lhe banho com a língua, seca-la com a boca dos pés à cabeça, morrendo de desidratação e sentindo os cheiros que desodorantes e perfumes jamais conseguiriam disfarçar. Depois daquele dia eu não queria mais saber dos sorrisos, dos peitos firmes, da bunda redonda e dura, do abdome seco ou dos cabelos muito pretos. Dali em diante meu desejo era um só: sonhava em lamber suas axilas suadas para descobrir o gosto salgado, azedo e sensual daquela pele colorida.