Tempos mudados

Posted by in Uncategorized

1

Tenho achado que algumas coisas estão meio estranhas, mas não saquei de primeira. A gente vive de dois em dois, pulos duplos, correndo contra e a favor do tempo o tempo todo. Isso nos tira uma boa parcela da habilidade de perceber mudanças sutis no mundo que nos cerca. Alguma coisa mudou, por exemplo, na maneira como eu escrevo. Tenho tido muito pra falar e pouco pra escrever, mas passei os últimos dez anos vivendo da maneira oposta. As pessoas falam de forma diferente, os assuntos são diferentes, as rotinas mudaram. Será que eu tô ficando velho rápido demais?

Já não vejo meus amigos com tanta frequência. Quando nos vemos já não nos impressionamos com tanta frequência. Quando nos impressionamos já não é tão impressionante quanto antes. E quando falamos sobre “antes” a gente sente que faz uma vida inteira, mas são só alguns anos. Essa coisa de ver amigos tá mudando tanto que eu às vezes desisto de chamar as pessoas pra fazer as coisas, ou sugerir algum programa, porque parece tão incômodo. Parece que os outros se incomodam de serem incomodados, sabe?

Já não tem piscina no verão. Não vejo as pessoas indo na piscina alheia, a piscina do clube, do prédio… Tirando a piscina da Natalia, que essa sempre vai ter gente se jogando, o resto abandonou a vida aquática. E ninguém mais pula dando mortal, ninguém pega balde d’água pra jogar nos outros, ninguém molha as meninas tomando sol, ninguém faz drink na bacia de salada e coloca na água pra boiar. Ninguém, é claro, são os meus ninguéns, as pessoas que estavam ou estão comigo. O mundo é grande demais pra eu saber se todo mundo parou de se jogar na água.

Durmo às 21h30. Tudo bem que tenho acordado às 5h da manhã e que minha jornada de trabalho aumentou consideravelmente em relação ao último emprego, mas não vejo mais as coisas. Não vejo filmes. Não vejo novela. Não vejo o Big Brother. Não completei as séries do Netflix que eu tinha começado. Parece que minha vida de segunda a sexta encolheu, se exauriu no meio de horários e reuniões e e-mails e peças e campanhas e darkposts e emails marketing e headers e footers e call to actions e tudo isso. Acabou o tempo até pra pensar sobre a falta dele.

Mas tudo isso só saltou aos olhos depois do primeiro sinal. Eu, na correria insana dos dias, não estava percebendo tudo isso. O que me deu o estalo principal, o primeiro de tudo, foi o snapchat da Juliana. A Juliana Cardoso, rainha do snap de balada, meu termômetro de vida social saudável, minha inspiração pra escrever que “a juventude é foda e ainda vale toda a pena” parou de postar. E isso é grave, senhores. A Juliana é o exemplo de coisa sólida que some e a gente não percebe. Cadê Juliana na balada com seus canudos em riste balançando a cabeça pra lá e pra cá? Cadê os cabelos com coques duplos, os rabos de lado, as jaquetas de couro, os makes característicos? Cadê Juliana bebendo além da conta e falando groselhas bem humoradas? Cadê a Ju na pista ligando a lanterna do celular pra se filmar sem pudor? Cadê a Ju na noite enquanto eu estava indo dormir pra acordar cedo amanhã? CADÊ???

Tem coisa mudando demais nesse nosso futuro presente. Fico na dúvida… Fico pensando sobre o que é que o futuro parecia ser quando a gente ainda estava no passado. Não me lembro de ter imaginado isso que é o agora. Não me lembro.

 

foto patrick rohl