Memórias Utópicas

Os potes

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Os potes todos organizados, lado a lado, cores e tamanhos, na ordem. Todos amontoados nos armários da cozinha do fundo, vazios, sem serventia. Tupperware morre de fome em casa de rico, você sabe. E eu sou rico. Rico pra caralho. E essa cozinha do fundo é a cozinha de lembrar que um dia a gente não foi rico. É cozinha de fogão de quatro bocas, microondas da linha branca da Continental. É a cozinha do tempo do “é o que tem, é o que dá”. Mesa com conjunto de quatro…read more

Dente-de-leão

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Sobrou tão pouco de mim. Das frases de efeito aos olhares penetrantes, tudo foi perdendo o brilho, se tornando opaco e ineficaz. Uma manta branca como névoa cobriu o que eu tinha de melhor e foi, aos poucos, me tornando invisível. Se eu falo, as palavras nascem mortas, sem som, sem espaço no dicionário. Se meus meus melhores movimentos tomam conta de mim, o chão não se comove, o vento não se mexe, ninguém vê. Percebo hoje que meus dias eram uma reação química, complexa ou simples, não sei, mas…read more

Islândia

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Sonhei com a Islândia. Essa noite meu cachorro não dormiu nos meus pés, acho que esfriou demais e acabei sonhando com neve. Mas não era só neve. Havia uma estrada longa, parecia infinita, e eu dirigia um daqueles carros de filmes, tipo Mustang 68, sentindo a vibração do motor no volante, câmbio manual de seis marchas e os vidros abertos. Minha boca estava rachada do frio, mas eu não sentia dor, afinal, era um sonho. Uma imensidão tão infinita que fazia me sentir pequeno, como se precisasse correr ao máximo…read more

Bruna e Cláudio

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O verão fazia o quarto parecer uma sauna seca e a cama desarrumada era a prova de que era impossível dormir demais em dias assim. Ele acordando, rolando entre um lençol amassado com o rosto amassado contra o travesseiro e ela de pé na sala, sentindo o macio do tapete na sola dos pés descalços e tentando ligar o cérebro no tranco. Eram um par acontecendo sem simetria e separadamente. O cachorro do vizinho latia sem parar e a rua começava a tomar ares de um bairro comum, com gente…read more

Suzana

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O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma…read more

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Pequenas Alegrias Coletivas

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Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou…read more

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Estaca 0,1

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Ela me olhava quando eu não estava olhando. E quando me via atento ao caminho, olhando para frente, pensava em quanto me queria para si. Mas eu me virava e ela disfarçava, fingia estar olhando depois de mim, pela janela, lá fora, e eu fingia não perceber a mentira. O carro quentinho, mas a chuva e o frio batendo cartão do lado de fora e o destino era qualquer lugar. Era pretexto, só pra ficar junto, só para poder olhar para mim. Tinha aqueles vícios de gente que não consegue…read more

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Driver – O retorno (do inferno)

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– levei seis anos para voltar a escrever sobre essa personagem – Fazia alguns anos que a gente não se via. E digo “alguns” porque não consegui contar exatamente, mas posso sugerir uns sete, oito, mais ou menos. Da última vez que eu a vi ela estava beijando uma garota negra careca no canto da parede de uma festa em um apartamento na Augusta enquanto eu tentava me livrar daquele labirinto de gente bêbada e estranha, daquela música perturbadora e daquela luz roxa incansável. Fomos parar lá depois de uma…read more

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Você também morre

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A juventude tem uma mania cretina de achar que é imortal. Nada do que é ruim acontece com a gente. A gente não vai escorregar subindo nessa árvore, nem vai se machucar pulando dessa pedra, nem vai ser pego dirigindo bêbado, nem vai engravidar dando umazinha sem camisinha. A gente está acima dessas coisas todas, só que não. Conheci gente que teve certeza de que não ia morrer, mas errou. Tem jovem que morre feio, de jeitos piores do que morreriam normalmente, só por se sentirem invencíveis. Carro é uma…read more

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Chuva, pó e a metáfora da vida

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Três milhões e meio de gotas de chuva batendo contra o vidro do carro. Eu ouvia todas elas, sem perder nenhuma, como se fossem tambores inaudíveis aos ouvidos comuns, ou simplesmente batidas de um coração que não tem corpo. Era escuro o universo dentro do carro, das vistas que passavam pelas janelas molhadas pelos muitos pingos vindos do céu. Era noite, tinha calma e euforia e, de repente, tudo pareceu perfeito até mesmo para uma mentira bem contada. Estava bom demais pra ser verdade, mas ninguém precisou me beliscar: eu…read more