Memórias Utópicas

17% de bateria

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Foi naquele instante, quando você interrompeu o banho para me olhar na porta, que eu percebi que nosso ônibus já estava sem freio, descendo a toda velocidade um barranco que não ia acabar bem. As sobrancelhas arqueadas como quem diz “sério, mesmo?”, os lábios apertados em pura desaprovação e a postura, imóvel, de quem não se da ao trabalho de mudar sequer a posição dos ombros. Virou o rosto, me reprovou com o olhar e voltou a se deitar na água quente da banheira. Estava quente ainda aquela água? Tive…read more

Namastê

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No canto da mesa, logo no caminho da porta, o bilhete largo, dobrado porcamente, escrito em um papel cor de rosa dramático. É que tem vezes que é preciso uma conversa franca, em outras o melhor é uma ligação, uma carta, um e-mail ou coisa assim. Nesse caso era o bilhete mesmo, até um pouco mais longo que o normal, mas ainda assim, bilhete. Começava sem remetente, nem destinatário, e a letra trêmula atacava o papel com coragem. É o tipo de coisa que é escrita de primeira, sem revisão. Dizia…read more

Acendi um baseado pra pensar em você

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Acendi um baseado pra pensar em você. É uma das coisas que eu mais gosto de fazer no mundo. Bolei rapidinho na mesa da sala, deitei no sofá e fumei inteiro, sem pausa. Viajei lembrando daquela vez que você me disse que eu tinha um olhar ameaçador enquanto bolava baseados. Não sei. Nunca fiz isso de frente com um espelho pra saber. Mas se você disse, eu acredito. Taí um fato: eu nunca duvidei de você sobre absolutamente nada. E você me falava que tudo ia ficar bem, que as…read more

Canivete

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O Canivete era o moleque mais foda da escola. Ele tinha um canivete, porra. E a mãe dele tinha morrido quando ele ainda era bebê. E dizem que o pai dele tava preso. Matou alguém. E a vó dele cuidava dele, mas na verdade ele fazia tudo que queria. Os professores tinham medo dele porque diziam que ele tinha “instabilidade emocional” e isso o tornava perigoso. O Canivete tinha 15 anos e não passava dos 60 quilos. Ele tinha alguns amigos, mas ninguém gostava dele. Os amigos estavam por perto…read more

A nossa vida real

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A porta se aproximando a toda velocidade, meu ombro contra o metal, o vento frio da noite, você derrapando com as botas de couro no asfalto úmido e o som de garrafas quebrando atrás de nós. Foi exatamente nessa cena em que a nossa vida começou. Ainda não tinha dado tempo de pensar sobre o que aconteceria caso alguma daquelas pessoas alcançasse a gente, nem sobre que tipo de morte horrível eu teria se um dia, por acaso, um daqueles caras descobrisse meu endereço e aparecesse no meio da noite…read more

É o fim, anjinho!

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Eu queria ser amiga dela, ir para festas com ela, dormir na casa dela, comer x-burguers gordurosos às 3h da manhã com ela, tomar o pior cappuccino da cidade no Fran’s Café com ela, me drogar com ela, fazer tudo com ela. Quando conheci a Nik o mundo desacelerou um pouquinho, os segundos se esticaram e não precisou nem de um minuto inteiro para me apaixonar: eu estava louca por aquela mulher. Ela era um pouco mais bronzeada que eu, tinha os cabelos ligeiramente mais curtos que os meus, mas quem…read more

O seu último adeus

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Se é a sua vontade, pode ir, vai. Mas antes me deixa ficar com algum pedaço seu, alguma lembrança oca, uma ilusão qualquer pra me agarrar quando a saudade arrombar a porta aqui de casa. Uma dor de saudades de você deve ser o bicho mais próximo da morte que um homem pode enfrentar sem ter morrido. Te perder é morrer sem ter direito a descanso, eu acho. É isso mesmo, acho que é isso. Então já que é pra ir, me deixa essa lembrança? Me dá sua mão. Me…read more

Tomara!

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Já faz tempo que eu não tomo o nosso vinho preferido. Mas a mesma sensação de felicidade que eu sentia quando a gente tomava, ainda vem engarrafada no sabor dele. Tem muita coisa que fica, mesmo depois que já foi embora. A textura das suas roupas, por exemplo, ainda está aqui na sensação macia de passar os dedos pelo meio do lençol fantasiando que em algum momento minha mão vai se chocar com as suas costas e eu vou te abraçar de madrugada. Às vezes é bem sofrido conviver com…read more

AAS – Amnésia Amorosa Seletiva

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Você sai de casa, passa na padaria, passa no bar, passa frio, passa debaixo da marquise pra não tomar chuva e numa dessas passadas conhece alguém. Aí vocês se sentem bem quando estão juntos, trocam uns beijos, comem comidas que parecem ter um sabor muito melhor do que antes, quando comiam sozinhos, bebem coisas novas, experimentam itens nunca antes explorados do cardápio e depois sentem um tesão incontrolável pelo outro. Aí misturam orgasmos deliciosos com programas interessantíssimos, festas alucinantes, luzes, cores, nuances e um cenário de filme se forma bem…read more

Bruna e Cláudio

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O verão fazia o quarto parecer uma sauna seca e a cama desarrumada era a prova de que era impossível dormir demais em dias assim. Ele acordando, rolando entre um lençol amassado com o rosto amassado contra o travesseiro e ela de pé na sala, sentindo o macio do tapete na sola dos pés descalços e tentando ligar o cérebro no tranco. Eram um par acontecendo sem simetria e separadamente. O cachorro do vizinho latia sem parar e a rua começava a tomar ares de um bairro comum, com gente…read more