Memórias Utópicas

O desejo de ir

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Era meu desejo, ir. Arrumei minhas poucas coisas, abandonei o que não tinha salvação, tomei um avião e fui, como era planejado. Eu desejava ir ao Marrocos, ver os arabescos, os azulejos, as fontes, os fortes, as cores, o cheiro, o gosto e, já no primeiro dia, senti aquele abraço quente que o mundo dá nos viajantes que, no meio de uma caminhada ao fim da tarde, se dão conta de sua existência em outro lugar do planeta, sozinhos, corajosos e empolgados com a descoberta. O deserto foi a porta…read more

Questão de tempo

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Há muito tempo ando em busca de algo maior. Sonho, há anos, em ser algo grande, algo importante, algo além de mim. Olhando para fora, para além da sacada do meu apartamento, meus sonhos parecem uma porção de milagres prestes a acontecer. As luzes noturnas fazem tudo parecer mais significativo. Olho o horizonte noturno da cidade e tenho a certeza de que a vida me reservou alguma coisa maravilhosa para logo mais. Talvez não seja fama. Talvez não seja dinheiro. Talvez não seja nada do que eu conheço. Mas ainda…read more

O peso das coisas

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Às vezes a gente só ficava juntas, sentadas na sala sem dizer quase nada, vendo o sol atravessar as cortinas pintando os móveis velhos, todos meio marrons, enquanto meus pais trabalhavam. Meu irmão morreu quando eu tinha doze. Ficar sozinha sempre foi um problema para mim, mas ela nunca deixava que eu me preocupasse com isso. Sempre estava comigo, mesmo que não quisesse, mesmo que estivéssemos brigadas. A única vez que ela ficou sem me ver por alguns dias foi quando eu contei que havia perdido a virgindade. Foi com…read more

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EU A QUERIA MAIS QUE TUDO NO MUNDO (PARTE 2)

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Demorei alguns segundos para perceber que estava tocando uma música. Ela tinha ligado o celular em alguma espécie de caixa de som high-tech que eu tinha achado que era um banco no chão. Largou as roupas todas pelo chão, estirou os pés sobre a mesinha de centro e ficou dançando como quem está sozinho no último lugar do mundo antes do apocalipse. Ela queria que eu a visse, mas não queria se sentir observada. “Dance como se ninguém estivesse olhando” eu pensei, tentando traduzir os olhos fechados dela, os braços…read more

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Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

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Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a…read more

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Sensual e fictício

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A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas. De costas, apoiada na parede como…read more

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Visita

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Era noite, passava das onze, e alguém bateu palmas no portão. Imaginei ser alguém pedindo fora de hora, ou algum dono de um carro pouco competente pedindo um “empurrãozinho” e, por isso, levando em consideração a hora e o frio, ignorei. Mas depois de outras palmas ela gritou meu nome, e meu coração pulou pra fora da boca agitado, como um cachorro vira-latas hiperativo, foi pulando pela casa manchando tudo, parou na ponta e ficou balançando o átrio direito e batendo para mim. Tive que abrir. “O portão está aberto”,…read more

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Suor

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Ela dava voltas na pista, uma porção delas, incontáveis para mim. Meio dia, calor, muito calor e eu na sombra, acompanhando só com o movimento dos olhos, as voltas que ela dava pra lá e pra cá. Foi assim que tudo começou. Eu olhava porque era curioso, porque corria sozinha, no pior horário e sem fazer manha. Primeiro comecei a pensar no motivo daquilo, se realmente era necessário, porque ela já tinha o corpo que as mulheres estavam buscando, já tinha o formato que as revistas queriam vender. Sofria de…read more

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“Se for pra morrer, que seja trepando”

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Pro fim do mundo ela queria só sexo e algumas garrafas de vodca. Se fosse o fim mesmo, se fosse fogo, água, escuridão, oblívio, qualquer aniquilação, não restaria ninguém para usufruir dos estoques de comida, nem de armas, nem de nada. Se viesse mesmo o fim, a galope, a nado, voando, ou num sopro de briza do mar, não haveria estoque suficiente para nada. Então decidiu diferente: “Se for pra morrer, quero que seja trepando!” Dentro de casa o estoque alimentício era basicamente duas dúzias de garrafas de bebidas alcoólicas,…read more