Tempo?

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Primeiro pensei que era um sonho. Vasculhava o quarto com os olhos tentando identificar algum outro elemento absurdo. Sei lá, a foto de alguém que eu não conhecia, ou objetos de outra pessoa no meu ambiente, uma cor diferente, algo que comprovasse que eu não estava fisicamente ali. Depois que percebi não estar mais dormindo, suspeitei de uma daquelas alucinações que a gente tem quando vê uma sombra e acha que é alguém, ou quando ouve alguma coisa e tem a impressão de ter escutado chamarem nosso nome. Fiquei olhando, vidrado, tentando identificar algum pedaço do canto da parede, do detalhe do gesso no teto, mas nada. Tinha mesmo alguma coisa ali.

Ficava percorrendo todo o contorno do teto e me subia um frio na espinha toda vez que via aquela sobra escura, mais escura que a própria escuridão, no canto do quarto. Quando a vida se torna incerta assim, mostrando as coisas que desafiam o nosso senso de realidade, é difícil se mover. Eu não conseguia sequer mover minha cabeça. Estava completamente petrificado por um medo que já não cabia e mim e começava a transbordar, saindo pelos poros, encharcando o lençol e escorrendo pelas beiradas da cama, caindo no chão, molhando o tapete e seguindo para fora da porta. Eu estava me derretendo em um medo inédito, até então.

Comecei a respirar ofegante, sentia o cobertor subindo e descendo com meu peito se enchendo e esvaziando de ar. Senti tontura, fechava os olhos e sentia medo de aquela coisa pular em mim. Ficava de olhos abertos e o medo mudava, tinha medo simplesmente de detectar algum movimento, uma luz, um som ou algo do gênero. Eu queria muito que não fosse real. O tempo passou e eu continuava vendo a mancha escura. Meus olhos foram se acostumando com a escuridão e às vezes tinha a impressão de ver um relevo, como se fosse uma espécie de planta, um monte de vasos de samambaia amontoados no canto do meu quarto, tinha umas folhas que pendiam, outras grudadas na parede, mas não tinha certeza.

Consegui, depois de muito tempo, mover o braço e, sem tirar os olhos daquilo, tateei ao lado do corpo procurando o controle da televisão. Senti o plástico frio surgir na ponta dos meus dedos e por alguns instantes pensei ter encontrado a salvação e a solução de todos os problemas do mundo. Apontei para a estante e, mesmo que sem certeza, tive a impressão de que a sombra se movera. Sentia-me acuado, vigiado, como se não fossem mais plantas, mas sim alguma coisa com olhos, dentes, narinas e cérebro. Apertei o botão e o flash de luz clara e colorida me deixou parcialmente cego por alguns segundos.

Era alguém! Tinha pernas, braços, cabelos compridos e parecia respirar. Desisti do medo, da escuridão e de tudo mais. Levantei o corpo como uma máquina que fica em posição de começar a trabalhar e bati a mão no interruptor de luz. Pronto, agora estava tudo claro, nítido e visível, mas não menos assustador. Grudada no canto do quarto, completamente nua, com os cabelos molhados, como se fosse suor, óleo, algo assim, estava minha ex-namorada. Era ela mesmo, não alguém que se parecia com ela, como acontece nos sonhos. Era ela, sem nenhuma dúvida, sem nenhuma roupa, grudada no teto com as costas bem no canto, as pernas dobradas com os joelhos perto do peito e os pés na parede, com as mãos no teto, também grudadas, como se tivesse ventosas, cola, algo assim.

Estava ali, me olhando com olhos de quem não está em sã consciência e, por alguns instantes, senti mais medo do que tudo na vida. Aí ela sorriu e da boca, antes fechada, escorreu um líquido grosso, escuro, que pela cor e maneira como caia e escorria pelo queixo, só podia ser sangue. Sorriu para mim com os dentes manchados de uma mistura de vermelho e marrom e aquilo me arrepiou completamente. Como se fosse normal, esticou as pernas se apoiando na parede e empurrou o corpo em direção ao teto. Veio engatinhando ao contrário, numa posição difícil de explicar, e parou exatamente sobre a minha cabeça. Se agachou no teto – se é que é possível imaginar essa posição – e agora tocava o teto com as solas dos pés e com as palmas das mãos ao lado do corpo.

“A gente precisa conversar, amor! Você tem um tempo para mim?” disse ela, sorrindo muito, estranhamente bem humorada, estranhamente muito doida. Era ela, a voz era dela, era tudo dela, menos aquela cena, aquele sangue e aquele cabelo estranho. E claro, não fazia o menor sentido o fato de ela estar grudada no teto. Fiquei olhando para ela, bem dentro dos olhos, esperando alguma nova reação. Mas ela não fazia nada. Respirava, babava sangue e me olhava vidrada. Depois de um tempo percebi que ela não pisca. Pelo que entendi ela está esperando uma resposta. Quer saber se eu tenho tempo. Sinto que se eu me mover demais, serão meus últimos suspiros. Então estou aqui, pensando, tentando achar uma maneira de não ter “uma conversa” com essa coisa que se grudou sobre a minha cama. Já faz umas 20 horas que eu tô aqui. E ela não pisca!