Tomara!

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Já faz tempo que eu não tomo o nosso vinho preferido. Mas a mesma sensação de felicidade que eu sentia quando a gente tomava, ainda vem engarrafada no sabor dele. Tem muita coisa que fica, mesmo depois que já foi embora. A textura das suas roupas, por exemplo, ainda está aqui na sensação macia de passar os dedos pelo meio do lençol fantasiando que em algum momento minha mão vai se chocar com as suas costas e eu vou te abraçar de madrugada. Às vezes é bem sofrido conviver com esses fantasmas em forma de sensações maravilhosas. É impressionante como a comida daquele lugar estranho que a gente ia de vez em quando ainda tem o mesmo gosto e, consequentemente, me lembra exatamente o tipo de coisa que a gente fazia antes e depois de comer lá. Mas eu superei. Acho que superei bem, até.

Fico pensando que, assim como você está no molho de manjericão daquele restaurante, eu devo estar na sua vida em um monte de pequenas coisas. Vai ver eu ainda estou na textura de toda barba áspera que toca o seu rosto. Nem que seja por um segundo, aposto que seus sentidos te enganam e você pensa que sou eu, antes de cair na real. Será que tem gente que usa meu perfume quando sai com você? Dia desses a menina da locadora estava usando aquele perfume doce que você passava quando a gente ia encontrar com gente que fuma. Lembro até o que você dizia: “só passando isso aqui pra não voltar pra casa parecendo um cinzeiro ambulante”, e eu sempre dizia que adorava o cheiro. Adoro até hoje, tanto que quase abracei a moça da locadora. Mas já foi, é passado, né.

Ainda acho estranho, só de vez em quando, dirigir sem ninguém com a mão na minha perna, ou olhar para o lado do passageiro e não ver ninguém. Se eu dirijo por longos períodos sozinho posso jurar que sinto sua mão perto do meu joelho. É como se tivesse deixado uma marca, um formato, não sei. Fico pensando se as minhas mãos também estão em você. Se pudesse escolher, entre todas as sensações, ficaria com aquele arrepio que eu te causava quando enfiava os dedos no seu cabelo pela nuca, ou no suave toque justo do elástico da calcinha quando desce pelas coxas e afrouxa depois do joelho. Eram momentos sublimes aqueles em que eu tirava a sua roupa. Quando te olhava seminua, quase como uma foto de revista, sempre me dava a sensação de que era a primeira vez e eu estava prestes a descobrir um leque de sensações ainda inexploradas. Mas hoje não é mais assim, eu tô legal.

Fui ao museu, dia desses, e vi num quadro antiquíssimo uma moça que jurei, por alguns segundos, ser você. Ela tinha o mesmo nariz, os dentes da frente um tiquinho separados, a boca um pouco pálida, rosada, como aqueles batons que você passava, os olhos expressivos, inquisidores, o cabelo dividido ao meio, castanho na raiz e loiro nas pontas. E olha que naquela época o conceito de “mechas californianas” não estava nem perto de existir. Senti como se estivesse olhando uma foto sua resgatada de alguma época em que a gente ainda não tinha existido junto. Fico pensando se você vê meu rosto no reflexo rápido do taxista no retrovisor, na barba do cara que troca bilhetes no cinema, nos rapazes sentados na outra mesa do bar onde você costuma ir. Será que você ainda lembra de mim? Acho que sim… espero que sim. Tomara, sei lá…

 

* foto JAI