Você lembra dessa foto?

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Você lembra dessa foto? Lembra de como foi esse dia, o que aconteceu antes e depois dessa imagem? Eu lembro. Foi no segundo exato em que eu te contei que estava indo embora. Logo após o flash você disse “mas você odeia Paris!” e eu ri, enquanto você colocava a alça do maiô de volta no ombro. Fim de clima. Eu juro que estava adorando aquele showzinho, striptease ao som de Amber Run, sensual até o talo, uma coisa pré-selvagem, uma troca de olhares intensa como só você consegue manter. Eu lembro do som saindo do seu celular, que por sinal está na fotografia também. É tão lindo, tão honesto o seu olhar, a sua boca com a palavra cortada ao meio, suspensa no ar, e o seu rosto dizendo “cê tá brincando, né?” enquanto a sua boca não se movia mais. Eu amo essa foto.

Depois você levantou, apanhou o maço de cigarros no braço do sofá, colou a testa na janela e chorou um Marlboro inteiro. Nenhum som, nenhuma conversa. Eu sentindo o peito dobrar e você acelerando pensamentos e revoltas a cada tragada. Cigarro nenhum acalma o anúncio de uma despedida opcional. Quem morre vai sem escolha. Mas quem escolhe partir está bem vivo e isso muda tudo. Durou uma eternidade até que você amassasse o filtro amarelado no cinzeiro. Foi como um teste de paciência no qual eu estava quase reprovando. Esses minutos pós-foto foram horríveis, talvez os piores até hoje. O silêncio maltrata de uma maneira sofisticada e cruel. É difícil lidar.

Mas antes disso a gente bebeu uma garrafa de vinho e comemos uma carne muito boa naquele restaurante do seu amigo. Esse pessoal que cursa gastronomia deveria seguir o exemplo dele e manter o sonho do próprio restaurante até conseguir. Valeu a pena, ao menos pra ele. E em casa você estava impossível, dançando, fazendo caras, tirando a roupa e se exibindo. Seria uma noite e tanto, aposto. Eu sempre ficava ansioso pelo sexo com você. Nunca era igual, nunca era o que eu esperava e, mesmo que fosse uma bosta, era uma experiência e tanto. Quando era bom, era ótimo. Quando era ótimo, era o melhor. Você sempre foi boa nesse negócio, desde o primeiro dia.

Dois meses, ou um pouco mais, depois dessa foto, eu decidi voltar. Mas não voltei. Me contaram que você estava namorando um cara, e ele era legal, e que estava tudo indo muito bem. Decidi segurar comigo meu próprio arrependimento e minhas frases de reconciliação. Seria injusto ter voltado. Eu estava louco de saudades, queria te contar como essa cidade fede e é bonita na mesma medida. Mas você não gostaria de me ouvir, eu acho. Você não veio, você não foi sequer convidada. “Eu te amo, mas tenho que ir sozinho” foi o que eu disse, eu lembro. Acho que com essa frase consegui ganhar o troféu de homem babaca do ano.

Mas onze meses antes dessa foto a gente transou a primeira vez, algumas horas depois de se conhecer. A maioria dos meus amigos conheceu as namoradas em festas, bares, casas de amigo ou ambientes rotineiros como trabalho ou escola. Sempre me trouxe um pouquinho de orgulho contar pra todo mundo como a gente se conectou logo de cara enquanto esperava para colher exame de sangue. Você estava com medo, eu segurei sua mão gelada e você não soltou mais. Dois desconhecidos se consolando na hora do medo. Todo casal deveria se formar em situações extremas assim, afinal, se a pessoa é atraente se cagando nas calças, vai ser ótima em qualquer outro momento.

Daí, um ano e nove meses depois dessa foto você me mandou um e-mail maluco. No começo eu achei que fosse mentira, mas você nunca foi de mentir. “Sonhei que você quebrava a perna! Você está bem?” você mandou, logo no início da mensagem, antes mesmo de dizer oi. E eu li com o notebook no colo, sentado no sofá, com a perna pra cima, engessada do meio da coxa para baixo, rindo sozinho da coincidência e de felicidade. Você se lembrava de mim, você estava preocupada comigo, você sonhava comigo! Foi nesse momento que comecei a escrever isso aqui, porque precisava aproveitar a chance, porque queria dizer tudo aos poucos e percebi que precisava vomitar tudo de uma vez. Mas sim, estou bem, e sim, quebrei a perna de um jeito idiota. Escorreguei na calçada. Tem feito muito frio aqui e tudo fica molhado o tempo todo. Paris inteira anda quebrando a perna.

Eu sinto saudades, quero que você venha me ver. Sei que é muito doido tudo isso, mas é tudo que eu gostaria nesse momento, então é isso: rue au Maire, 75003, Paris. Meu sobrenome está escrito no botão da campainha. Eu tô te esperando. Faz um ano, nove meses e doze dias que eu tô te esperando. Vem, por favor. Bjs

 

foto helene by delta element